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sábado, 24 de outubro de 2015

Perdido no caminho da escuridão

Eu acredito… Acredito que exista amor em ti. Um coração que tem espaço para me deixar entrar. Acredito que apenas seja medo aquilo que te prende, que seja o passado a ditar as tuas ações. Olho para os teus olhos doces e esverdeados e vejo o quanto perdido estás neste mundo; o teu rosto vazio de expressões, quase diria que não tens coração. No entanto, eu sei… Sei que existem sentimentos por detrás dessa máscara de ódio e escuridão na alma. Sei que virá o dia no qual encontrarás o caminho e correrás para fora do alcance desses demónios, para bem longe deles. Conheço-te melhor do que pensas, melhor do que querias.
Não sou… Eu não sou tão inocente como crês. Sou muito mais do que a jovem inocente que vês quando olhas para o meu reflexo. Arrisca. Arrisca e deixa-me entrar. Paciente e calma, aqui estou eu, sentada e olhando para o horizonte esperando por veres a luz existente no teu próprio coração. Estás a seguir o rumo à miséria e à loucura, perdendo a alma com cada passo dado em direção da escuridão, deixando o passado prender-te no seu tempo. Fechaste o teu coração, negas olhar-me nos olhos, ver para além do castanho da íris, que eu não sou perfeita, nem sequer sou a ‘simples rapariguinha’ que teimas em acreditar.
Eu pensei… Pensei mesmo que poderias amar-me. Vejo no vidrar dos teus olhos verdes que nada existe. Não me deixas aproximar, foges como se eu fosse a culpada da tua dor. O meu coração aperta e vejo o meu próprio reflexo no teu rosto. A solidão, a loucura, a confusão, a raiva e a vontade de fugir. Pensei que passo a passo pudesses acreditar em mim e deixar que eu tocasse o teu peito e enchesse o teu coração com o meu amor. Eu sei que as sombras do teu passado continuam a cobrir-te e que não sou forte o suficiente para as afastar da tua alma, todavia, tentaria se me deixasses dar um passo.
Eu acredito… Pensei que acreditava possuir a chave para o teu coração. Talvez fosse uma ilusão. Talvez tudo fosse mentira. Talvez os teus olhos realmente me ordenassem que parasse, me avisassem que não iria conseguir alcançar o meu objetivo. Diz o que quiseres, mas eu sei que no fundo queres ficar. Peço-te para ficares, para aceitares o que sou. Conheço-te tal como me conheço. Somos duas peças do mesmo, tão semelhantes que diria ser coincidência. A loucura, os demónios tingem as nossas almas. Só o verde não vê o que existe. Voltarei costas a todo o nosso presente e futuro se assim o desejares. Caminharei se me pedires.

Pensei… Pensei mesmo que desta vez seria diferente. De coração partido seguirei rumo à minha própria miséria. Adeus… Segue-me se desejares. Liberta-te e liberta-me. Olha para mim e não veja a inocência que parece cobrir-me, vinda das palavras de outros. Vê a loucura e a escuridão no meu interior tal como eu vejo no teu. Abre o coração para mim e serei tua. Nunca serei perfeita. Nunca pertencerei aos demónios do teu passado. Desprende-te deles… Tento manter a fé. Tento acreditar. Pensei… Por momentos pensei que fosse real. Talvez… Por favor… Doce amor, fica.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Uma nova estrela no céu

Tenho estado a pensar numa forma de dizer tudo o que estou a sentir neste momento. Todavia, nada existe que equivale remotamente ao que estou a sentir. Perdi uma grande amiga. Perdi uma das pessoas mais importantes da minha vida. A minha contadora de histórias, aquela que me acariciava e mimava.

Nenhuma lágrima limpara a dor do meu peito. Nada voltará a ser o mesmo. E se Deus a chamou, eu não poderei fazer nada. Nada de nada! E é isso que me deixa frustrada.

Quem alguma vez perdeu uma pessoa amada, saberá que nenhuma palavra nos ajudara. Porém, o sentimento, o saber da existência do apoio de todos... Isso talvez nos ajude.

O tempo terá de passar. Muitos dias morreram e nasceram vezes sem conta até eu me sentir capaz de voltar a olhar para as fotografias dela sem me lembrar do vazio na minha alma e na minha vida.

Agradeço a todos aqueles que alegaram a vida da minha avó. A todos aqueles que a apoiaram. Porque sei que ela viverá nos nossos corações e memórias. E garanto que será louvada nas palavras das minhas histórias. E só espero que ela se orgulhe de mim e me guarde no meu caminho.

Ela será uma estrela no imenso céu azul-escuro.
 


Amo-te, avó. Sempre irei amar.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Folhas Brancas

Para o Pedro, que me inspirou com as suas palavras, levando-me no final a criar este texto para ele, para todos os leitores e, até certo ponto, para mim própria.



As páginas brancas do caderno que repousa aberto na escrevaninha recolhem o pó da casa abandonada. Num tempo em que nada era se não elegância e melodrama, vi os corredores cobertos de retratos dos antepassados que nunca conhecemos. Esperei pela noite, quando a lua estava bem alta e cheia no céu estrelado. Vi os raios a atravessarem os vidros tenuemente manchados do sol e do passado imperturbado. Se não soubesse melhor, diria ser capaz de encontrar as memórias ainda no ar das divisões, no caderno aberto e intocado em cima de um tampo de madeira escura e cravado com a bela arte de um artista desaparecido.

O salão, amplo e gritando por uma melodia, resguarda a sua beleza do sofrimento alheio, das crianças que tentam ver por entre os vidros sujos, do futuro marcado a um passo cego. Entro de olhos abertos. Sinto aquela energia romântica no ambiente quieto, as memórias de centenas de pessoas dançando naquele chão com cores cremes intercaladas com aquelas que noutrora foram vibrantes. Fecho os olhos e respiro fundo, imaginando um mundo nunca antes visto, se não nos anos guardados pelas paredes beges, pelas cortinas vermelhas, pelo pequeno palco onde uma banda tocaria para divertimento de todos. Vejo as pautas quebradiças perdidas no chão de madeira desse mesmo palco.

Arregaço o vestido comprido e negro como a noite de há milhares de anos. A lua entrega-nos os seus raios, tranca a paixão nos quartos fechados e respira sobre as páginas brancas de um caderno. Temo nunca ser capaz de escrever nele. Deixo-o repousar na escrevaninha de minha mãe, avó, bisavó, e todas as mulheres que me antecederam. Viro costas ao salão, acreditando que ao manter o meu percurso, talvez as memórias desapareçam na minha mente e me deixem terminar o luto. Subo pelas escadas de mármore, o eco dos meus passos levantam-se, deambulando por um corredor deserto. Tapeçarias expostas nas paredes frias de pedra, grandes lareiras com restos de cinzas, cadeirões de veludo, camas de postes, rendas a tombarem, criando uma barreira quase opaca.

Deparo-me novamente com o quarto, em tempos meu, num passado onde a loucura de um amor era dramática, onde partíamos o pão dizendo sermos justos para os criados e para todo o mundo. Peço por uma palavra, uma simples palavra, tal como as folhas brancas suplicam pela pena que trará a tinta. Pela janela da varanda vejo o jardim arbóreo, as heras a treparem pelas paredes de pedra, as flores e arbustos a crescer com a liberdade que nunca tive. As cicatrizes que a fonte me dera, ao descobrir a verdadeira fachada daquele que jurara sobre a campa de sua mãe o seu amor por mim. Os momentos passado sobre a sombra do grande castanheiro, sentada numa manta colorida que eu própria tecera, vendo os pássaros voarem de ramo em ramo, colhendo flores para uma coroa, e esquecendo o presente entretendo-me com os meus pensamentos. Todo ele, toda aquela natureza agora irregular, trazia-me um sentimento nostálgico.

Passei a ponta dos dedos pela cadeira em frente da escrevaninha. Aquela que fora o alento dos meus suspiros, a guarda das minhas aflições, o apoio que necessitava para as cartas. Respirei fundo, para além de todo o pó e tempo que acumulava-se nos tecidos, o cheiro das rosas deixadas todos os dias nos jarros, ainda flutuava. Talvez fosse a minha alma relembrando o quanto aquele lugar era o meu lar, a minha infância, o meu passado. Doía tanto ver todos os cantos da casa, só para voltar a dizer “adeus”. Uma lágrima caiu pela minha bochecha, secando no pescoço. O aperto no meu peito, a loucura na minha alma, o drama entranhado nas paredes do quarto fizeram-me tremer.

Sacudi o acento almofadado da cadeira, e sentei-me. Esperei aquilo que pareceu uma eternidade, apenas sentada, mãos no meu colo, vestido caindo pelas minhas pernas e raspando delicadamente no chão de pedra. Soprei o pó do caderno vazio. Partículas voaram à minha frente, brilhando com os raios lunares. As páginas, em tempos brancas, eram agora manchadas pelo bege. O tempo atacara-as como todos os outros vidros, paredes, escadarias e memórias. O tinteiro secara. Abri com cuidado a gaveta e peguei no monte de cartas atadas com uma fita azul clara. Sorri. Não seria hoje, nem amanhã sequer. Fechei o caderno e peguei nas memórias do meu passado. Levantei-me com cuidado e caminhei em direção da porta. Respirei uma última vez, aquele aroma fantasma de flores que morreram nos vasos pintados com cuidado e paciência. Passei os olhos pela beleza iluminada pelo branco da lua e fechei a porta de madeira.

Desapareci nos corredores como se fosse o vulto de uma casa assombrada. Murmurando a melodia de uma música à muito perdida. Vagueando nas memórias de um passado onde havia exagero nas roupas, onde loucuras por amor eram descritas em livros, onde suspiros pelos cavalheiros ressoavam pelos salões. Um instante na vasta época… Leve seria o meu sussurro, abafado pelas tapeçarias nas paredes, crepitando com as chamas que aqueciam a casa numa altura possuída pela excessividade. Desaparecerei pelos corredores com as cartas e caderno nos braços, de luto por uma pessoa que nunca ninguém compreenderá, sozinha para viver a existência como a assombração no fundo de uma rua. Procurando o amor que não me falhe, aquele que escrevera as cartas.

Folhas brancas na arca trancada a sete chaves. Deixada debaixo de uma cama não usada há alguns milhares de anos. Pedindo um beijo de boa noite como todas as outras damas na minha sociedade. O meu riso embate contra todas as paredes. Folhas brancas num caderno vazio. O vulto que se vê pelas janelas com o toque opaco, faz fugir quem nunca teve no coração a coragem para entrar e dançar com aquela que durante anos aguardou.

Ouvi a porta pesada ranger, o vento entrou trazendo consigo folhas secas. Escondi-me nas sombras do topa da escadaria principal. Caminhando com uma certa determinação, ignorando os apelos de quem quer que esteja do outro lado, na rua fria, ele entra. Espreitei, saindo do meu esconderijo. A memória de um tempo em que correndo atrás de uma menina, o vi correr. Escondida atrás do mesmo castanheiro que me dava abrigo do calor. Ele parou a passos de mim. Lembro-me de poisar o caderno branco por escrever, o mesmo que tinha nos meus braços, aquele que prometera marcar no momento em que nos voltássemos a encontrar.

Atravessei o corredor e desci as escadas. Fios de cabelo a caírem sobre a minha face. Fixei-o nos olhos. Os mesmos olhos que me fizeram apaixonar pela primeira vez por ele. O tempo parou. O vento deixou de soprar. Os apelos cortaram. O toque dos seus dedos, enquanto afastava os meus cabelos, era quente. Em segundos… Desaparecemos. Um riso fez ouvir e passos batocavam nos corredores, quartos e salão. Para lá da porta de madeira cravada com desenhos de rosas e heras a treparem, no quarto onde aroma a flores subtilmente supera o tempo, as cartas na gaveta e as folhas brancas numa arca que nunca se abrirá. E o caderno... O caderno, repousado na escrevaninha, com páginas beges escritas com uma letra florida. A história de um tempo, de um passado, de uma mulher que viveu duas vidas, em duas épocas, num mundo em mudança, sempre aguardando as palavras que um dia ouviria. E ouvira... E escrevera... Em folhas brancas que nunca desapareceram.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Um anjo mortal e humano



Ao entrar no meu coração, a força é tal que este para de bater. Se sonhar em penetrar pelo mar a dentro só para poder voltar a ver-te é a solução para abater a minha amargura e o meu desconforto, assim o farei. Se sorrir quando o mundo parece vazio é o meu castigo por te ter deixado levar um pedaço de mim em troca de nada, que assim seja. Só não direi que me arrependo de te amar, de te deixar entrar e derreter o gelo nos meus ossos.
Se os meus demónios me impediam de olhar rumo ao horizonte, se eles me prendiam com correntes de aço, um segundo foi o que bastou. A realidade mudou. Até aquele magnânimo momento, num tempo e espaço apenas definido por nós, o meu poder foi elevado. O meu amor… O meu corpo imperfeito mantivesse intacto. Foi a minha mente que se despedaçou e reconstruiu. Foi o renascer. A palavra “nunca” deixou de existir.
O futuro não pode continuar sem se tornar num presente impreciso. Por isso, chorei. Se o meu coração alguma vez, no passado longínquo, sofreu tal decadência e destruição, a memória esqueceu. Não direi que me arrependo de te amar. Louvo o momento que passou. Invejo as estrelas que te observam todas as noites, privilégio jamais me concebido. Eu deixei-te entrar. Eu deixei-te partir. Eu deixei-te fugir. E agora, busco o meu lugar. Um lugar onde possa reunir a força. E no fundo da minha mente, uma questão suplica por uma companheira que a complete como tu me completavas.
Basta procurar. Correr pela floresta atrás de ti. Gritar pelo teu nome. Chamar-te e pedir-te desculpas por todos os meus defeitos. Uma pessoa não é sem os seus demónios, e os meus são as correntes de ligação com o mundo. E tu… Um anjo mortal e humano, és o que me abriu os olhos para as inúmeras cores a iluminarem o caminho. O sonho inesperado. Sonho que nunca sonhei sonhar. “Nunca” que fizeste desaparecer.
Nada… Tudo… A verdade sobre a minha pele. O calor em constante erupção nos meus olhos negros. Se ao menos tu soubesses… Se soubesses que o meu coração não seguirá em frente enquanto te tiver marcado nele. Enquanto os meus suspiros forem por ti e os meus lábios sussurrarem o teu nome todas as noites e todas as manhãs. Se ao menos soubesses que partiria em plena maré alta, tentando, lutando por alcançar a tua terra, a terra para onde partiste. Se eu soubesse o quanto custaria não lutar…
Nas sombras reinam os pesadelos, os desejos sedutores das almas apaixonadas, os demónios de um outro dia. Perigos a evitar. Perigos a chamarem. Com lágrimas as escorrerem, eu caminho. O quanto caminhar custa, sabendo a verdade sobre a minha realidade pálida e vazia. Uma realidade sem ti. Uma realidade a pedir para ser alterada. Ou será o meu coração a pedir? Os beijos perdidos numa possibilidade nunca antes atingida. Nunca… Palavra que eu sonhara ter eliminado com os teus olhos. Olhos a atormentarem os meus sonhos, os meus pensamentos, as minhas memórias. Se os pesadelos são o meu castigo por ter desistido, assim seja.
Não direi “adeus”. Ainda não sou capaz desse passo no sofrimento. Lutar… Eu queria tanto lutar. A questão mantém firme na sua condição. O passado fica no passado, o presente absorve o futuro. No final, apenas água e sangue restam para manchar a vida e correr pelo meu corpo. Talvez… Não! Seguir em frente. Agarrar-te e rodear os meus braços em volta do teu corpo. Sim… Esse é o único desejo ao qual eu cederia. Poder ter-te ao meu lado. Mais uma vez… Uma mortal eternidade. Eu e tu. O meu sofrimento… O meu amor… O meu anjo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A história da sereia e do jovem capitão


Quando o sol decide brilhar após uma longa noite, quando as montanhas deixam de ser um obstáculo para os raios brilhantes, num rochedo ao pé do mar, uma sereia de olhos cintilantes, penteava os seus longos cabelos castanhos vivos. E pouco a pouco, quando os primeiros raios de sol, fortes e quentes, iluminavam a magnifica sereia em cima do rochedo (bombardeado pelas ondas do mar), como se fosse o lago que reflete a luz, também ela reflete o brilho do sol. Os pássaros que acordavam cantavam, o leve vento de verão baila com as folhas e o mar arrasta a arreia para esta brincar com os peixes lá no fundo.
Um dia como os outros, nada mais, nada menos. Penteando os seus longos cabelos ela continuava… Sentada no rochedo, parte da sua cauda azul-esverdeada na água. Para a frente e para trás… O mar ia lançando a água, formando ondas (umas violentas, outras suaves). Para trás e para a frente… O tempo ia passando e a sereia brincava agora com os peixes que iam passando perto do rochedo.
Inesperadamente um barco aproxima-se do rochedo. Não é atraído pela canção da sereia, ela não é uma dessas sereias. Foi o capitão. Ele é que foi chamado ao rochedo. Se foi a luz, se foi a beleza ou se foi uma força mais forte, que transcende este mundo, que lhe disse para ele seguir aquele caminho... De qualquer das formas ele mandou os marinheiros seguirem em direção ao rochedo. Mas antes de chorarem na rocha quente ele mandou parar. Sentada na rocha, a sereia olhava com um ar surpreso e assustado. Sem saber o que fazer tentou fugir mas antes que ela pudesse mergulhar e desaparecer no vasto oceano, o jovem capitão gritou bem alto “Não estou aqui para fazer mal”. Não serviu de muito. Ela desapareceu e não voltou.
Durante anos o capitão passou por aquele rochedo. Esperou, navegou… Navegou, esperou… Mas ela não aparecia. Até que um dia, num porto apinhado de pessoas, uma voz disse ao jovem capitão para seguir por entre a multidão até a um barco branco, chamado Tarí Anárion. Ele correu, perdeu o folgo mas não deixou de correr. Chegando ao barco, a passar a ponte entre a terra firme e o barco, estava uma rapariga, longos cabelos castanhos vivos e olhos brilhantes. A sereia com uma forma humana, sem cauda azul-esverdeada.
O capitão nunca mais largou a sereia, a sereia ainda continua a ir ao rochedo. O resto é história e essa história ainda está a ser escrita.

sábado, 5 de maio de 2012

Felicidade primaveril e horrores de inverno.

Vieste ter comigo, disseste que precisavas de ajuda, coisas normais. Sorri e não mostrei a dor que sentia das inúmeras facadas que estava a receber. Nunca choraste no meu ombro apesar de por milhares de vezes eu ter dado com aquela aura de tristeza que te rodeava como se os anjos tivessem descido apenas para testar a tua força de vontade. Vi-te a afastar, a correr para bem longe de mim, talvez tenhas visto as mil carcaças que tenho no meu passado e não quiseste arriscar a ser mais uma naquela imitação de Vale dos Reis.

Apenas posso olhar para ti, distante como se vivesse noutra realidade. As nossas mãos nunca se tocaram e os teus lábios nunca foram meus, talvez não estejam destinados a ser. Antes quando me perguntavam se tinha sonhos eu dizia que tinha sonhos de dia e noite, que queria viver mais um dia e conquistar todos os meus objetivos se assim tivesse destinado mas que nunca ia desistir. Agora tenho mais um: ver-te feliz. Mesmo que não possa ser eu a fazer-te feliz, desejo que alguém te faz sentir bem e te ofereça todo o amor e carinho que merece. No final vou acabar por sair magoada mas eu sairia de qualquer das formas. Será mais um tesouro perdido na pirâmide escondida do faraó, rodeado de mil e uma múmias e protegido por armadilhas mortais que acumularam esqueletos.

Posso não ser a mais bela da zona nem a mais inteligente e é claro que dei um enorme banquete de insetos mas eu sou a contadora de histórias e espero que isso sirva para alguma coisa no final da minha vida quando eu própria for consumida pelo fogo que me deu vida. A minha mente pode ser mórbida e macabra, posso viver num mundo da fantasia sempre que escrevo e por isso não tenho direito de te pedir para me abraçares. Apesar de sempre que o meu peito doí e as lágrimas tentam rasgar a mascara de pele que cobre o meu rosto, a única pessoa que me vem à mente seres tu, eu vou deixar-te ganhar asas e voar livremente.

Primeiro e último. Talvez o seja. Ficarei marcada para sempre com o teu nome no meu coração petrificado. Posso ser jovem, posso não ter a sabedoria dos mais velhos, posso estar sempre a errar, posso mentir, posso deixar de lutar mas nunca serei a mesma porque decidir que te iria amar. Posso apenas ser quem te ajuda com coisa triviais e saber isso magoa. Morro e renasço vezes sem conta. Nos meus sonhos massacro milhares de pessoas e tu assustado e paralisado com a minha imagem ensanguentada, choras. Não quero que chores. Não quero que penses que sou um monstro. Não irei destruir todos só porque não podes ser o meu parceiro. Prefiro sofrer.

Se os demónios e os anjos se unirem para te levar então de bom agrado me darei para que possas viver nos braços de quem queres. Se eles me amaldiçoarem e obrigarem a viver sem ti então talvez noutra vida fiques nos meus braços. Ficarei à espera desse dia, mas viverei para tentar ultrapassar a cruel injustiça de não te possuir. Como uma tela, pintada calma e carinhosamente, assim também ficaram gravadas as memórias, imortais e a preto e branco. Se tenho de ir para o túmulo então irei com as memórias de um amor persistente e doce. Saber que os sentimentos não são mútuos não me faz parar, é como se eu tivesse sido intoxicada pelo desejo e pela dor que sinto sempre que vais na direção oposta. Sei que sou doida, devia deixar de te amar, devia arrancar este pedaço do meu coração e dá-lo aos demónios mas eles gostam de me ver a sofrer, é mais gratificante do que receber apenas um pedaço de coração.

Salvação. Não tenho salvação. Morrerei e pronto. Talvez te devesse dar o meu coração, arranca-lo do peito e mostrar a todos como ele bate. Como ele bate aceleradamente sempre que está perto. Dizer-te que não quero desistir mas se não o fizer temo que os anjos e demónios se fartem de mim e se virem contra ti. Eles não me farão mal mas receio que não tenhas a mesma sorte. Quero dizer-te que sonho contigo todas as noites e que não desejo que te afastes. Mas é possivelmente demasiado tarde para isso. Os nossos lábios nunca se tocarão e os teus braços nunca serão o meu conforto. Estou sozinha com a solidão e os fantasmas do passado. Tenho a certeza que antes tive este sentimento e no final os demónios resolveram cobrar a divida e retiraram brutamente o meu coração. Cortaram-me ao meio e disseram que se alguma vez eu quisesse voltar a sentir o mesmo teria de lhes deixar observar a minha destruição, e eu deixei.

Meu amor, nunca direi o teu nome em voz alta. Continuarem aqui a sofrer em silêncio como uma estátua. Colocarei a mascara e dizer que sim. Não te abandonarei e tentarei seguir em frente levando comigo todos os demónios e anjos que ameaçam cortar a tua cabeça e oferecer-ma num espeto, sem olhos pois esses são a janela para a alma e com a boca cosida para que nunca fales. Para teu bem vou recuar três passos por cada passo que der na tua direção. Vou ajudar-te quando puder e tentarei não apoiar-me em ti. Deixarei para a noite a dor, porque é preferível chorar quando não estás comigo, não correrei o risco de te levar para o túmulo mais cedo do que é previsto. E se um dia eu for primeiro tentarei esperar por ti e tomarei conta da tua vida. Não deixarei que caias na tentação ou que te vendas aos demónios.
Adeus meu amor. A minha alma não será separada e depois do corpo padecer ela continuará a lutar contra todo os assassinos que querem a tua pele. Se fores tu primeiro eu procurar-te-ei na próxima realidade. Não sei se és o único mas por agora és e isso é que importa. Não posso deixar os demónios andarem por ai livremente, pois eles podem torturar e matar outras pessoas e já chega de corpos na minha vida, por isso tenho-os perto de mim e espero que compreendas quando um dia eu deixar de falar. Não é por ter desistido, não é por já não quere ser tua amiga, apenas não podia viver sabendo que no final eu fui a causa da tua infelicidade. A tua infelicidade passa a ser a minha infelicidade. Já o contrário não se aplica e isso deixa-me um pouco mais descansada. Apenas ouvir a tua doce voz chega por agora. Apenas dizeres “Olá” chega para eu saber que não sou invisível. E se queres a minha ajuda e se pedes por ela, eu estarei lá para assistir como uma escrava, só que não por imposição, uma escrava do meu próprio sentimento.
Não és o cavaleiro no cavalo branco, nem a estrela mais brilhante do céu. És apenas um homem que aos meus olhos merece a felicidade primaveril todos os dias da sua longa vida. Não vieste com o amanhecer nem com o anoitecer. Não te prometo a lua nem fortuna. Não te posso dar imortalidade corporal mas posso dizer que a terás. Serás imortal no coração das pessoas, principalmente no meu. Não sou uma deusa nem um anjo ou demónio. Sinto os horrores de inverno todos os dias da minha vida. Vejo sonhos a morrerem e vontades a fugirem. Não quero que seja mais um sonho que depressa acabou e me deu um empurrão para a realidade arrepiante manchada de vermelho e com uma aura negra. Também eu quero uma felicidade primaveril, tal como aquela que te desejo. Adeus meu amor. Desejar-me-ás essa felicidade? Ficarei à espera, sentada na areia da praia a olhar o sol adormecer no mar e eu vou adormecer com o teu nome invisível nos meus lábios e um aperto no coração.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sonhos, promessas e desejos esquecidos


Era um dia de sol, o vento quente fazia o meu cabelo voar e o aroma a flores que se sentia no ar era maravilhoso. A rua estava infestada de néscio, idiota, pessoas irresponsáveis e crianças perdidas mas mesmo assim o dia parecia alegre. Talvez a ignorância e a estupidez tivessem deixado as pessoas cegas ao sofrimento que os ingratos provocavam às pessoas que antes as tinham cobrido de alegria e ouro. Mais à frente crianças, inconscientes e selvagens, brincam como mais ninguém sabe. No parque um jovem promete a lua à sua amada, mal sabe ela que nem sempre se consegue cumprir o que se promete ao sabor da paixão.

Tantas promessas que eu vi voarem sem serem cumpridas, tantos sonhos perdidos por estupidas coisas, coisas fúteis. Tantos corações partidos que me apareceram à frente, tantas rosas morreram nas minhas mãos que eu cheguei mesmo a pensar que todas as injustiças, toda esta parvoíce de vida e mundo fosse culpa minha. Pensei que se negasse algumas coisas, se desaparecesse com todos os sentimentos que tinha as coisas mudariam, pensei mesmo que a minha alma fosse a culpada do cinzento manto que cobria a vida.

Tentei escrever cartas, tentei acalmar a raposa branca gigante e solitária que partilhava a minha alma com aquele ser mágico que nunca antes tinha visto; ser que inundava o meu lar mental com uma luz incandescente. Mas as ruas continuavam infestadas, no parque o jovem continuava a fazer promessas e eu continuava a ver um futuro negro para todos nós. Não sei se o que eu fiz (ainda que mentalmente) mudou para pior a vida na nossa suposta realidade. Ao longe as crianças continuam a brincar nos jardins das suas casas, no parque ou em casa de amigos e as pessoas ingratas continuam a massacrar tudo e todos sem descanso.

Vivemos num mundo doloroso. As pessoas não percebem o quanto delicada é a vida, o quanto doí e o quanto sofremos. Muitas pessoas dizem para pararmos de dizer mentiras e aproveitarmos a vida, outras dizem que devemos pensar no futuro, e existem outras que choram pelo passado e estão constantemente a criticar os que não mostram que tem pena dos outros e que não choram pelo triste passado deles próprios e dos outros. Podemos ter pena de vez em quando e atendendo a certas circunstancias mas todos somos diferentes, e ninguém pode obrigar ninguém a ser como eles querem que os outros sejam.

Talvez se as pessoas não fossem assim também não haveria muitas outras coisas: livros com personagens tão estupidas que se tornam cómicas, textos que reflitam sobre essa estupidez, ideias boas que surgiram da boca de um doido mas que foram aplicadas por cientistas, esses antes de serem considerados homens e mulheres de ciência foram tolos, e a ciência antes era o conjunto de tolices. Eu não devo fugir desse grupo de tolos. Tola sou aos olhos de todos os que não me compreendem.

Ideias de uma bruxa. Palavras de uma bruxa. Quem acreditaria se eu dissesse o que vejo quando olho para as pessoas? Agora que o sol tinha desaparecido e que as crianças estavam em casa, apenas restava os pais que vinham do trabalho, cansados mas que mesmo assim abraçam e leem uma última historia para os seus filhos. Também eu fui uma dessas crianças e um dia serei um desses pais. Agora que o jovem tinha deixado a sua amada e estava rumo a casa, eu finalmente via; as promessas mantinham-se no parque, imoveis tal como eu esperava. Por mais que ele queira as promessas não seguiam o seu coração.

O mundo em que vivemos nem sempre faz o que esperamos. Quando queremos que algo acontece nem sempre é quando esperamos e às vezes nem acontece de todo. A rapariga espera ver tudo que o seu amado prometeu mas a história dela não é a de Romeu e Julieta, aquela história de amor que a mãe lhe lia quando ela era criança. As crianças que estão agora deitadas esperam do mundo algo magnífico, mas a vida não é o País das Maravilhas ou a Terra do Nunca. Os pais que agora tentam descansar desejam que um dia os seus filhos não tenham as mesmas dificuldades que eles estão a ter mas o universo não pode garantir isso.

No fim os sonhos voam altos e os desejos ainda mais alto. Na lua a Senhora Azul canaliza todos as esperanças e escrevi nos seus inúmeros pergaminhos tudo o que no universo flutua. Não ver concretizado muitos dos seus sonhos e desejos não impede as crianças, os jovens e os adultos de pedir, desejar e até sonhar. Eles têm fé que um dia sejam recompensados e que o que realmente desejam (independentemente de eles terem ou não consciência do que possa ser) lhes seja oferecido.

Também eu peço e desejo. Também eu sonho. Mesmo sendo o que sou, tenho fé. Espero que um dia a Senhora da lua me possa recompensar; talvez me leve para a lua e eu me torne a sua pupila. Talvez um dia quando o sol, a lua e o arco-íris forem um só, eu me possa tornar na Senhora Azul, ser louvada pelos seres humanos que continuaram a viver neste mundo e conceder desejos aqueles que merecem quando merecem. Serei aquela que verá as injustiças e os sonhos despedaçados. E um dia quando as três luzes se juntarem novamente o meu ciclo termina e um novo começa, tal como com toda a vida neste vasto espaço.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Perdão, esquecimento e amor


Queria pedir desculpa por tudo o que disse, por tudo o que fiz, por tudo o que sou e por tudo o que serei. Não posso mudar o passado apenas posso esforçar-me para não cometer os mesmos erros no futuro. Tenho medo de apenas merecer uma prenda do reino do nada. Tenho medo de cometer todos os erros que desejo não cometer. Tenho medo que no momento em que o teu nome sair dos meus lábios tu saibas tudo o que sinto e tudo que desejo dizer, mas tenho mais medo de te perder.
Não quero ter de passar por tudo isso novamente, não quero arder de raiva por achar que podia ter ficado calada, porque podia ter deixado de parte tudo o que sentia, porque podia não ter sido o que sou. Não te quero desiludir nem magoar, nem mesmo afastar-te. Quero manter-me ao pé de ti tal como em tempos estive, sem preocupações e compromissos, sem sentimentos que me abalem porque não sei lidar com eles sem perder tudo. Quem me dera poder pedir a uma estrela para me ajudar, pedir para ela me guiar o caminho para que eu não me tenha que afastar de ti e correr o risco de falecer de desgosto ou esmorecer de saudade.
Não sei porque mas sinto que estou a perder a minha mente, sinto que estou a perder a razão, sinto-me a vaguear pelo vasto infinito de esperanças perdidas. Por mais que tente esquecer todos os sentimentos negativos e tudo que pode acontecer de errado quando me sinto apaixonada mas não consigo, sinto-me presa nos meus receios e sinto que não posso fugir dos braços fortes do medo. Não há nada que eu possa fazer, nada que eu possa dizer, nem mesmo nada que eu possa escrever que te possa mostrar o que se passa, o que sinto, o medo que tenho de tudo o que pode acontecer. Mas o que é uma pessoa sem medo? Talvez não passe de um ser insensível. Eu sei que todos temos medos, que todos lutamos numa batalha constante contra tudo o que nos enfrenta e nos provoca arrepios.
Eu sei que devo ser corajosa, se que te devo esquecer, que nunca será possível mas não posso. Nunca te vou esquecer nem mesmo depois do sol morrer e da lua esmorecer. Nem que me magoem e mil vezes me torturem, no meu coração estarás sempre, indestrutível, imortal. Nem mesmo o tempo poderá desgastar as memórias e apagar o carinho e amor que sinto; serás como a Fénix que renasce das cinzas. O sentimento, um dia pode desaparecer mas a memoria dele para sempre ficará.