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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Cair no abismo

Sinto lágrimas acumulando-se nos meus olhos e fecho-os ao senti-las escorrerem pelo meu rosto. Olho para o teto branco do meu quarto e não sei o que mais fazer se não puxar os cobertores para cima e afundar-me no abismo da escuridão. O meu peito está pesado, as vozes são facas e as palavras as facadas que me matam um pouco mais. Nunca tentei perder-me, foi um acidente. Se as coisas fosse preto e branco tal como dizem nas discussões eu não me sentiria tão perdida e inútil. Queria levantar-me mas não consegui. Cada passo que dava, cada dia que vivia, por mais que fizesse, era inútil.
Dou o meu coração à escuridão que me quer matar. Mentiras atrás de mentiras. Grito interiormente quando o verdadeiro se prende na minha garganta. Engulo o nó que se forma. Não como e deixo o meu corpo recolher-se e gastar toda a energia. Não sinto a fome mas sinto a mente fugindo das amarras que a prendem ao corpo físico. Nunca me senti tão perdida no mundo e os anos passam. Uma última vez… Pedia por uma última vez para não olharem para mim daquela forma. Pedia para acreditarem, para me ajudarem a acreditar.

Choro… Choro pelo mundo, por mim e pelo futuro que não virá. Nunca tentei ser aquilo que não sou. Nunca tentei magoar os que me amam. Só queria um último abraço. Uma corrente que não me permitisse voar para longe da terra. Cada dia a passar, mais escuro o quarto fica, pois mais atrativa a escuridão me parece. Deito-me e não me consigo levantar. Todos os dias uma luta. Choro quando ninguém vê, nunca grito para não pensar na loucura. Minto… Minto a mim própria, pois a loucura continua a existir no meu interior, consumindo a minha alma. E caiu no abismo. 

sábado, 24 de outubro de 2015

Perdido no caminho da escuridão

Eu acredito… Acredito que exista amor em ti. Um coração que tem espaço para me deixar entrar. Acredito que apenas seja medo aquilo que te prende, que seja o passado a ditar as tuas ações. Olho para os teus olhos doces e esverdeados e vejo o quanto perdido estás neste mundo; o teu rosto vazio de expressões, quase diria que não tens coração. No entanto, eu sei… Sei que existem sentimentos por detrás dessa máscara de ódio e escuridão na alma. Sei que virá o dia no qual encontrarás o caminho e correrás para fora do alcance desses demónios, para bem longe deles. Conheço-te melhor do que pensas, melhor do que querias.
Não sou… Eu não sou tão inocente como crês. Sou muito mais do que a jovem inocente que vês quando olhas para o meu reflexo. Arrisca. Arrisca e deixa-me entrar. Paciente e calma, aqui estou eu, sentada e olhando para o horizonte esperando por veres a luz existente no teu próprio coração. Estás a seguir o rumo à miséria e à loucura, perdendo a alma com cada passo dado em direção da escuridão, deixando o passado prender-te no seu tempo. Fechaste o teu coração, negas olhar-me nos olhos, ver para além do castanho da íris, que eu não sou perfeita, nem sequer sou a ‘simples rapariguinha’ que teimas em acreditar.
Eu pensei… Pensei mesmo que poderias amar-me. Vejo no vidrar dos teus olhos verdes que nada existe. Não me deixas aproximar, foges como se eu fosse a culpada da tua dor. O meu coração aperta e vejo o meu próprio reflexo no teu rosto. A solidão, a loucura, a confusão, a raiva e a vontade de fugir. Pensei que passo a passo pudesses acreditar em mim e deixar que eu tocasse o teu peito e enchesse o teu coração com o meu amor. Eu sei que as sombras do teu passado continuam a cobrir-te e que não sou forte o suficiente para as afastar da tua alma, todavia, tentaria se me deixasses dar um passo.
Eu acredito… Pensei que acreditava possuir a chave para o teu coração. Talvez fosse uma ilusão. Talvez tudo fosse mentira. Talvez os teus olhos realmente me ordenassem que parasse, me avisassem que não iria conseguir alcançar o meu objetivo. Diz o que quiseres, mas eu sei que no fundo queres ficar. Peço-te para ficares, para aceitares o que sou. Conheço-te tal como me conheço. Somos duas peças do mesmo, tão semelhantes que diria ser coincidência. A loucura, os demónios tingem as nossas almas. Só o verde não vê o que existe. Voltarei costas a todo o nosso presente e futuro se assim o desejares. Caminharei se me pedires.

Pensei… Pensei mesmo que desta vez seria diferente. De coração partido seguirei rumo à minha própria miséria. Adeus… Segue-me se desejares. Liberta-te e liberta-me. Olha para mim e não veja a inocência que parece cobrir-me, vinda das palavras de outros. Vê a loucura e a escuridão no meu interior tal como eu vejo no teu. Abre o coração para mim e serei tua. Nunca serei perfeita. Nunca pertencerei aos demónios do teu passado. Desprende-te deles… Tento manter a fé. Tento acreditar. Pensei… Por momentos pensei que fosse real. Talvez… Por favor… Doce amor, fica.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um Som No Fundo Da Rua



Um som no fundo da rua. Passo apressada pela calçada, fugindo do barulho sem nome. As vozes percorrem as paredes das casas habitadas. Chamas a emanarem das janelas fechadas. O som continua. Apressado e saltando atrás de mim. Corri, tropecei e levantei-me, sem nunca olhar para trás. Talvez o medo de me deparar com uma rua vazia, era maior do que aquele que teria se encontrasse um demónio ao meu lado. Sabia perfeitamente o quanto me custaria chegar a casa. A três ruas de distância…
A feira abandonada no fundo da primeira rua estava deserta, abandonada num passado doloroso para a cidade. Tendas com placares partidos. Telas de pano rotas e desgastas, apresentando as atrações fantasmas. A luz da lua iluminava-a como num filme antigo. Uma roda gigante, no meio de toda a decadência mantinha o seu esplendor macabro. Uma montanha russa era consumida pelas ervas que trepavam pelos carris e vigas, tornando-a num monstro verde. Carroceis num movimento petrificado no tempo, e as cores esbatidas pela chuva e sol.
Passei pelas grades ferrugentas e cobertas de arbustos. Por entre eles, consegui ver a magnânima e assustadora feira. O som atrás de mim continuou a seguir os meus passos. Corri mais um pouco, prosseguindo as sombras da lua e o gradeamento da feira. Nada me parava, apenas me aterrorizavam. As formas no chão, o zumbido do som ao fundo da rua e a loucura na minha mente. Se pudesse abandonar a minha fé, voltar-me para trás e receber de braços abertos o medo, talvez este não me voltasse a assombrar todas as noites. O demónio, que me seguia, mantinha-se sorrateiro nos seus passos cauteloso, apenas o som no fundo da rua vibrava o ar.
Apressei-me a alcançar a minha pequena casa branca. Passei o jardim do bairro. O vento abanava os baloiços vermelhos e amarelos. O escorrega metálico reluzia com o brilho prateado da lua no seu quarto crescente. Tropecei depois de atravessar o portão de minha casa. O som no fundo da rua continuava a ecoar pela estrada deserta. Não olhei para trás. A minha coragem mantinha-se inexistente, ou escondida no meu coração. Reparei que o som parara de me seguir. O vento trouxe nuvens que cobriram a lua, no momento em que abrir a porta e entrei em casa.
O leve cantar dos rouxinóis levantou-se. Da janela do meu quarto vi o nevoeiro que cobriu as estradas. A feira abandonada entrou na minha visão. A sua aura mística gritava pela luz da lua, presa nas nuvens. Toquei no vidro frio. O ar quente expelido dos meus pulmões, criava um fumo branco. Todas as casas tinham poucas luzes acesas, as ruas estavam acinzentadas e o passado tremia com o canto dos pássaros e o som no fundo da rua. Esperei uma mudança, um gemido de dor, um aperto no meu peito… Nada me aconteceu. Apenas senti frio, deitei-me na cama e adormeci com os barulhos que todas as caminhadas noturnas me apavoravam. Esqueci por momentos o sussurrou na minha janela. Fechei os olhos e disse “Adeus” aos sombrios vultos na rua. Que viesse na noite seguinte e me tentassem chamar. Hoje quem ganhou, foi eu.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Rua Sem Saída

Para a Mariana. A minha segunda irmã, a minha cupcake baker. Love you. Be happy.
(Batman lover forever) *-*


Um ruído vindo de uma rua sem saída ecoou pelos paralelos e paredes das casas que formavam a escuridão naquele lugar. Não muito longe dali, uma melodia constante, pingo atrás de pingo, gotas de água a caírem numa poça. Esse som repetia-se pela ruela. Ping… Ping… Ping… Um som a combater pela atenção dos monótonos homens de negócios, que por ali passavam, com os seus fatos lisos, enfadonhos e desprovidos de personalidade. O ruido na rua sem saída era mais forte.
O que quer que fosse, que arrepiava o meu corpo com os gritos de desespero e agonia, tinha a voz mais aguda alguma vez ouvida. Nem parecia ouvir. Como se o som fosse inaudível. Porque não fazia ele o mesmo comigo? Ou porque não derretia ele os ossos dos que passavam na rua principal? Alucinação… Loucura… Nenhuma outra explicação.
Queria fechar os olhos e correr para longe dali. Queria virar os pés e partir. Obrigar o meu corpo a não ceder à tentação de avançar. Ping… Ping… Ping… Grito abafado. O vento embateu no meu corpo. Trazia o leve cheiro salgado. Sangue e suor… Inclinei-me para a frente e fechei finalmente os olhos. Respirei fundo e esperei. Não sei pelo que. Mas esperei…
Abri os olhos. As sombras menos escuras, no fim da rua sem saída, lutavam. Alguém lutava. Andei… Andei com curiosidade e não com coragem. Fui descuidada. Não devia ter andado. Fui de encontrão com um homem de negócios. Ele ralhou. Chamou-me nomes e nem sequer esperou pelo meu pedido de desculpas ou para me ajudar a sair do chão lamacento. Humilhação não se comparou ao som contínuo vindo da minha direita.
Levantei-me, caminhei e caminhei. Senti lágrimas a escorrerem pela minha face. Cheguei ao fim da rua sem saída. Os gritos pararam. Nenhum som ecoava sem ser o das gotas de água ao juntarem-se à poça. A lua escapou pelas nuvens. Lágrimas caíram. Tanta destruição. Tanta dor. Miserável e descontrolado som… Agora compreendia. Agora sabia… Nada mais do que a verdade.
Um respirar tocou-me de leve no pescoço. Recusei-me a virar e ver quem era. Tinha medo. Tanto medo… E no fim, quando eu pensava que nada mais podia partir o meu corpo, a minha alma, tudo o que fazia de mim aquilo que era, o respirar parou. A sombra levou a sombra. E eu desabei no chão húmido da rua sem saída. Olhos fechados… Dor, miséria, medo… Alivio. Vira o mal, vira o bem resgatar as sombras e leva-las para a lua. Não seria tão descuidada.
Não seria um… O que foi que vira? Não me lembro. Um sonho… Um fim…

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Último suspiro das ruínas



Um suspiro, um beijo, um abraço, uma caricia profunda do arrepio do vento. A mão que agarra a mão, o corpo que puxa o corpo numa aventura da vida. Ou o que resta dela… Sabe Deus as consequências do céu estrelado, do olhar parado e ignorante do viajante, e da última armadura de metal. A demorada e suave espera por um primeiro sorriso. Sorriso que não lhe pertence. Que pertence unicamente a quem o expressa e nunca a quem o recebe. Porque quem o observa nem sempre o compreende. Sabe Deus o que se faria se não se pudesse sorrir para quem entende.
O golpe não seria nada, comparado à desilusão que poderia sentir se a minha mão não vibrasse com a imagem da guerra. Como se ela própria desejasse ser arrancada do meu corpo para fugir, seguindo o caminho que a leva ao campo. Desilusão… Triste é imitar emoções que não sentimos e sentir aquelas que não serão aceites. Isso é desilusão.
Olhar nos olhos de outra pessoa e pedir a Deus que ela não tenha tais pensamentos. Ideias preconcebidas pelo resto da sociedade. Pedir explicações quando sabemos a verdade. Ninguém sabe o que se passa. Desilusão é ouvir alguém afirmar que nos compreende. Ninguém sabe o que sentimos. Desilusão ao olharmos para as nossas mãos e ver o sangue, invisível para o mundo, correr como uma cascata. Desilusão em nós próprios.
Cobarde… Roubar um beijo, pois mais vale partir consumado que desiludido e zangado com a falta de coragem. Correr elas ruas desertas numa manhã de inverno, enquanto a chuva habita os céus e o sol tenta ser livre. Tal como todos os seres humanos presos na jaula de vidro, tentar sair. Pessoas como eu olham para trás e, tentando escapar dos olhares malignos, recusamo-nos a desistir. Assim pensava…
Saltar as barreiras da grande casa assombrada. Ver as ruínas, os quadros queimados e as folhas envelhecidas no chão. Louvar os bons momentos. Pedir por mais beijos, mais abraços, mais aventuras guiadas pelas mesmas mãos, que me tocam quando o perigo é iminente e o medo é excessivo. Sonhar com cores e sorrisos, que nunca serão meus. Fechar os olhos e respirar o aroma da destruição e beleza. Toda a contradição que em tempos fora apenas uma diretiva.
A lealdade do viajante para com toda a magnitude das ruinas. Vezes e vezes, ele voltava à casa. Nós voltávamos… Eu voltava. Mãos cerradas, sonhos na mente, olhos a cintilarem de possibilidades. Sabe Deus as possibilidades que verdadeiramente me agradam. E apenas Ele sabe o quanto a caminhada custa, porque para me é apenas mais um dia. Mais uma das muitas loucuras a que sou sujeita.
As faíscas que saltam no meu coração em cada instante da minha vida. Imperfeitas e incontroladas luzes multicolores espalhadas no horizonte. Intricado padrão negro na pele bege. Beijos perdidos, sorrisos desaparecidos, raios e explosões. Tudo leva à petrificação. Tudo faz lembrar aquele passado, aquela loucura, as aventuras que tivera nas mãos do destino. Se tal entidade realmente existe. Tudo, pela última vez, provoca a solidão, a tristeza que durante anos foi e veio no meu coração.
O cartão lançado para a fogueira, consumido pelo mesmo fogo que horas antes nos aquecia, na casa assombrada inevitavelmente nossa. Enquanto as chamas se soltam dos troncos de madeira secos, e tentam o velho e húmido cartão, os viajantes vêm a lua resplandecer. Ele, guarda das memórias insignificantes, escurece. O fim… Desfeito em cinzas no chão da lareira. Dois beijos, dezenas de braços e um longo adeus. Um contínuo e arrepiante grito…
Pobre criança, deixada no campo, desampara, desiludida. Destruidora de almas… As memórias são vagas. O tempo passa pelas minhas mãos como o vento. Mãos frias… Nem mesmo o calor de outras as tornar normais. No campo, a criança dá dois passos na minha direção. Já não é uma rapariga. É a única que vejo. Não preciso de lhe tocar para compreender que ela não existe. Nada no sonho existe. Não neste preciso momento. Passado… Futuro… Ineludível e imperfeita loucura.
Nós… Que nós? Nesta casa arruinada não existe nós. O viajante partiu, o cartão queimou, a rapariga evaporou, o campo fica negro. As mãos frias, vermelhas e trementes agarram o que nunca foi meu. O que nunca será meu. O que não existe. Para quê? Para depois partir? Para agradece a Deus a aventura que nunca tive? Aquela que Ele sabe ser a minha vergonha, o meu desejo, a minha loucura… Para trás repousa um suspiro, um beijo, um abraço. Uma eterna confissão. Nada mais. Apenas pó e ruínas.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O Mundo dos Vidros



Pequena luz por entre o nevoeiro. Seduzindo-me com o seu brilho falso. Dois passos a caminho da perdição e três para perder a mente. Sinto a rajada de vento. Caio no chão e firo as mãos com os vidros de todas as janelas partidas dos quartos queimados. Forço as minhas pernas a suportar o peso do meu corpo. O partir dos vidros debaixo dos meus pés ecoa com as passadas rápidas daqueles que correm para a luz. Olho para trás. Vejo a escuridão de que todos fogem.
Vejo os pequenos corpos apressarem-se, tropeçarem e saltarem, chegarem cada vez mais perto da luz. Cambaleio para a esquerda. Agacho-me tentando ganhar o equilíbrio. As minhas mãos ensanguentadas tocam nos estilhaços brancos. Por entre o misto vejo as manchas vermelhas no local onde tinha acordado e caído. O cheiro acobreado do líquido escarlate escorrendo pela palma das minhas mãos, mistura-se com o salgado das lágrimas involuntárias. O coração escapa uma batida. A escuridão aproxima-se.
Ordeno o meu corpo a erguer-se do chão de cacos. Forço o ar pesado a entrar nos meus pulmões cansados. O coração volta a falhar levando as minhas pernas com ele. Sinto-me a sufocar. Levo as mãos ensanguentadas ao pescoço, tentado libertar-me o mais rapidamente daquilo que me prender. Os meus dedos percorrer todos os milímetros de pele, agora, manchada. Nada… Pura e simplesmente pele. Forcei novamente. Inspirei… Expirei… Inspirei… Expirei… Voltara a respirar. O coração voltou a bater descontroladamente. A escuridão parou.
Vi um vulto passar por mim. Corria também em direção à luz. Todos corriam em direção à falsa luminosidade nos confins daquela parede inexistente. Algo parecia errado. Seria a minha tentativa de segui-los? Seria a loucura? Ou seria o coração? Definitivamente soava a imperfeita e diabólica loucura. O que fazia a minha mente acelerar para se perguntar: Seria mim ou deles? Olhei para trás. A escuridão avançou.
Tentei concentrar-me no bater inconstante do meu coração em vez dos passos insanos de quem quer que me rodeava. Tuntum… Tuntum… Pausa. Recomeça. O tambor dentro do meu peito parecia aceitar a minha tentativa de concentração. Auxiliava o meu pensamento. Olhei para a frente. A luz ainda brilhava. Tanto como antes brilhara. Tanto que parecia um sono. Parecia imaginação. Seduzindo-me pela segunda vez. Deixei o olhar tombar no chão de vidros, salpicado com o poder vermelho do meu fraco corpo. A escuridão voltou para trás.
Ergui-me. Tremelicando pela falta de força e pela atração que me puxava para o lado fictício. Era o que acreditava. Virei costas. Inspirei. Expirei. Minha loucura? Minha perdição? Ou será a minha salvação? Dois passos a caminho da perdição e três para perder a mente. Qual era a verdade e qual era a ficção? O vento soprou, sacudindo o pó de vidro dos meus cabelos. Trazendo uma nova camada de neblina.
Cerrei as mãos. A dor latente perfurou-me os ossos. Dei dois passos. A luz continuava a puxar. Fascinando-me com sons excruciantes e imortais. Dei mais um passo. A escuridão cobriu o Mundo dos vidros. De nada me servia, porém não neguei ao corpo o doce poder do adormecimento. Que mais poderia oferecer quando loucura e teimosia era aquilo que corria nas veias. Escutei cada batida do coração. Uma… Duas… Três…

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Encantador de Sombras

O negro da noite cobre a luminosidade do Encantador de almas. Passei despercebida ao seu lado, vendada pela impureza dos meus próprios pensamentos, no entanto passei. Passei, folego preso e vestido escarlate no corpo. Desejei ser levada e desejei que ninguém conseguisse ver a cascada de lágrimas que corriam por detrás da venda. Perdi-me enquanto passava por ele. Corpo coberto por uma capa negra, sozinho na rua parcialmente deserta, numa noite que apenas eu sabia ser a encarnação da solidão. Passei e, para trás, ficou sem reação. Enlouquecida pela minha própria vida e mente, não fiz atenção aos passos vibrantes do Encantador de Sombras. Continuei, vendada e perdida.
Ainda me é possível lembrar todas as perdições. Tantas dores passadas e tantos sentimentos apodrecem na parede da casa abandonada. Não noto os passos que me seguem. Não noto porque me recuso a virar e ver quem é que me persegue tão persistentemente. A dor, que agarro firmemente nos braços, não me permite olhar em redor quando a curiosidade me abate. Por isso, sigo. Deixo ficar no anterior horizonte quem passei. E a rua desesperadamente deserta sorri-me, falsa e cruel. Tento libertar-me das emoções petrificadas no tempo. Ignoro a possibilidade de lutar contra a venda nos meus olhos.
Frio… Não sabia que o sofrimento também se mistificava, adotando o corpo invisível do frio. Nunca me fora dito que as minhas mãos iriam tremer como folha ao sabor do vento. Retirei o braço direito do aperto cerrado sobre o meu peito e levei a mão á cara. Apanhei uma lágrima. Apenas uma. Era o suficiente para tomar consciência que tinha de parar. Em frente a um velho eucalipto foi onde fiquei. O cheiro fresco a limpar o mau ar em meu redor. Nada mais perfeito.
Paralisa… Era como a minha mente estava. O rasto da podridão de sentimentos seguira-me. Justamente sacrificados em nome da minha sanidade. Como podia ter sido tão ignorante ao ponto de realmente acreditar que receberia a sanidade se destruísse tudo o que sentia e podia vir a sentir? E agora… Agora as Sombras vieram reclamar o que era seu por direito. De nada valia gritar todo o ar dos meus pulmões. De nada servia cair de joelhos e fechar as mãos na terra.
Porém foi o que fiz. Mãos cravadas na terra ao pé da velha árvore. Não gritei. A voz recusou-se a cumprir a minha ordem. Bati no chão poeirento. Mil lágrimas sugadas pela terra. Sentia-me pequena, insignificante e inútil. Os passos atrás de mim eram claros. Era a minha hora. O meu destino. A Noite colocara-me uma venda e as Sombras viram-me buscar. Restava-me engolir o pouco que me restava do meu orgulho, erguer-me e segui-las. Arrepender-me para o resto da vida, quando não parei e amei.
Levantei-me, esquecendo de sacudir a sujidade do vestido. No entanto, quem já tinha as mãos sujas com o próprio sangue não se importava do estado da sua roupa. Virei-me lentamente, olhos fechados por trás da venda negra. Senti o ar quente na minha cara. Chegara a hora de partir com o Encantador de Sombras, o dono da noite e das almas perdidas, o único capaz de restaurar a mente partida dos Condenados.
Abri a boca e fechei-a automaticamente ao lembrar-me que a minha voz partira. Comecei a erguer a mão em busca de algo, alguém. Perdi a força no braço e desisti de tentar. O ar à minha frente moveu-se. Petrifiquei. Ouvi o rasgar do ar seguido do toque nos meus cabelos. Tremi involuntariamente. Duas mãos percorriam todos os fios de cabelo até encontrarem o nó inquebrável da venda. Os dedos grandes batucaram duas vezes e a venda desfez-se em pó prateado.
Com medo de estar noutro mundo, não abri os olhos. Podia procurar algo reconhecível com as mãos, no entanto a força que habitava o meu corpo mal chegava para me sustentar o peso, nunca daria para mover os braços e caminhar. Por isso fiquei. Fiquei quieta e tentei escutar. Esperava ouvir passos. Nada… O ar quente ainda me batia de leve na face e um cheiro a maça cozida e mel inundava o ar em meu redor.
Era doce e quente. Era apenas o que pensava. Nada mais que isso. Seria este um mundo diferente ou o cheiro de quem quer que estivesse à minha frente. Inclinei-me em direção à origem do mel. Cambaleei, fraca e desnorteada, e fui amparada pelas mesmas mãos que me salvaram da venda. Abri os olhos instintivamente e negro foi o que vi. Tentei olhar nos seus olhos. Tudo o que vi foi o que esperava. Uns olhos negros escondidos por um capuz.
Cuidadosamente fui largada no chão. Sentada na terra dura, tremendo de medo e frio. Ele não falou. Esperei ver uma luz ou até mesmo a neblina. Nada aconteceu. Olhei novamente para o Encantador de Sombras. Ele retirava da capa um embrulho tão negro como o da sua roupa. Desatou o laço e abriu o tecido. Colocou-o sobre os meus ombros e cobriu a minha cabeça com o capuz. A capa era do meu tamanho. Admirei a textura dois segundos a mais do que queria. Quando os meus olhos voltaram ao lugar onde ele estava, já o homem desaparecia no horizonte, por entre casa e mendigos.
Levantei-me pela segunda vez. Apertei a capa ao corpo, sacudi a poeira e caminhei. Caminhei sem rumo aparente. Passo atrás de passou. Passei por mendigos e homens a saírem de ruelas escuras. Passei por mulheres com um cesto nos braços. Passei por carroças de comerciantes e por guardas fardados e armados. Vi vendas nos olhos de muitos. Porém tal escuridão não parecia impedi-los de continuar com o seu dia.
O sol nascia como habitual. Nada de invulgar parecia decorrer. Deixei de ver o quarto em ruinas. Deixei de ver os sentimentos pregados na parede lascada. Parei de sentir o vazio na alma. Ou talvez… Talvez a alma fosse diferente. Talvez eu fosse diferente. Ou talvez o mundo o fosse. Fosse qual fosse a razão, continuei a andar. Só eu e as sombras. Desejando voltar a ver aquele que me dera a oportunidade de viver. Se viver e continuar. Continuar sempre… Sempre a seguir um nada sem rumo.