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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Cair no abismo

Sinto lágrimas acumulando-se nos meus olhos e fecho-os ao senti-las escorrerem pelo meu rosto. Olho para o teto branco do meu quarto e não sei o que mais fazer se não puxar os cobertores para cima e afundar-me no abismo da escuridão. O meu peito está pesado, as vozes são facas e as palavras as facadas que me matam um pouco mais. Nunca tentei perder-me, foi um acidente. Se as coisas fosse preto e branco tal como dizem nas discussões eu não me sentiria tão perdida e inútil. Queria levantar-me mas não consegui. Cada passo que dava, cada dia que vivia, por mais que fizesse, era inútil.
Dou o meu coração à escuridão que me quer matar. Mentiras atrás de mentiras. Grito interiormente quando o verdadeiro se prende na minha garganta. Engulo o nó que se forma. Não como e deixo o meu corpo recolher-se e gastar toda a energia. Não sinto a fome mas sinto a mente fugindo das amarras que a prendem ao corpo físico. Nunca me senti tão perdida no mundo e os anos passam. Uma última vez… Pedia por uma última vez para não olharem para mim daquela forma. Pedia para acreditarem, para me ajudarem a acreditar.

Choro… Choro pelo mundo, por mim e pelo futuro que não virá. Nunca tentei ser aquilo que não sou. Nunca tentei magoar os que me amam. Só queria um último abraço. Uma corrente que não me permitisse voar para longe da terra. Cada dia a passar, mais escuro o quarto fica, pois mais atrativa a escuridão me parece. Deito-me e não me consigo levantar. Todos os dias uma luta. Choro quando ninguém vê, nunca grito para não pensar na loucura. Minto… Minto a mim própria, pois a loucura continua a existir no meu interior, consumindo a minha alma. E caiu no abismo. 

domingo, 23 de junho de 2013

Os demónios e abismos do meu dia


Para a Joanita. Com muito amor e carinho. Apenas mais um sorriso e mais uma lágrima.
 
Frio… Escuro… Caída no chão de mármore, desorientada do tempo e lugar. Lágrimas escorrem dos meus olhos irradiados de raiva e tristeza. Quem nunca sentiu esse sentimento? Ódio. O doce horror do dia-a-dia. A máscara gasta que usamos para lutar contra aquilo que acreditamos estar errado. E eu melhor do que ninguém sei a que é que esse sentimento sabe. Fel e viscoso… Nada existe para além disso e o mar torna-se purulento. As rosas murcham e a chuva é ácida. O piano toca freneticamente a melodia da destruição.
Mantenho-me imóvel, ainda sem saber onde estou ou em que tempo foi parar. O piano deixa de tocar dando espaço no ar ao silêncio. Tomada pela tentação levanto-me e caminho em direção ao nada em meu redor. No meu coração acumula-se o desejo incontrolável e sentir o liquido aveludado a escorrer das minhas mãos. Sinto arrepios nos braços e tremores nas pernas só de pensar. O terror que os outros devem sentir quando me olham nos olhos e não veem nada mais do que um monstro. Oh! O quando isso me faz feliz. Ver o medo a espalhar-se dos olhos para a cara daqueles insolentes.
No entanto continuou aqui. No escuro. Com ou sem desejo, com ou sei ódio, com ou sem paixão… Porque este é o meu castigo. Este é o meu pesadelo. Nunca tendo presenciado um falso pesadelo enquanto durmo, sou consumida por um durante o dia. Sou sujeita a viver na imensidão que é o sofrimento. Talvez se esquecesse todos os planos de destruição e me dedicasse ao sol, o pesadelo terminaria. Talvez… Pensei que sim, mas não podemos fugir uma vez lançada a pedra. Este é apenas mais um momento que tenho de ficar a observar o nevoeiro e a deambular por ele a dentro.
Já perdi as contas das vezes que vi o vermelho chegar e que mesmo assim continuei a seguir a luz. Não ajudou. O negro continua a cobrir-me os olhos. Um novo ciclo começa e o piano retoma a melodia. Perdi-me no tempo enquanto o mar se tornava purulento e as rosas murchavam. Sinto-me a entrar noutro mundo e mais uma ronda recomeça. Mais um mundo de sofrimento. Mais uma desilusão. Mais uma perdição intemporal.
Corro pelos campos de flores tão livre e encantada que nem me reconheço. Não sonho nem relembro, apenas vivo o momento. Não olho para trás, não revivo as memórias do passado e daqueles que deixei naquilo que antes fora o meu lar. Nem o vento contrário e frio me impede de continuar, alias, ainda me traz mas ansia de alcançar a terra das especiarias. Fluo pelo campo indo contra o vento, ultrapassando as muralhas. Rodopio no meio do campo totalmente inconsciente do tempo. É só mais uma das camadas do meu pesadelo. O não reconhecimento do passado.
É aquilo que não posso prever ainda que seja sempre o mesmo. Será a degradação e reconstituição. Não irei parecer enquanto o mundo não quiser. Irei continuar a percorrer as sete camadas enquanto o tempo e espaço não estiver satisfeito com o meu desempenho. O aborrecimento, o ódio, o desejo, o sofrimento… O final que nunca chegará. Os andares da minha alma. Os meus abismos… Os meus demónios… A minha autodestruição…