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sábado, 4 de abril de 2015

Reino dourado, adaga de prata, continuar



Os passos acelerados pela areia quente de um caminho atarefado, onde pessoas entravam e saiam de lojas, carregando os seus cestos e sacos de pano. Ela quase corria, desviando-se da multidão, olhando para trás com receio não das sombras, mas daquilo que essas guardavam por completo dos olhares indesejados. Com o capuz da capa negra cobrindo os seus longos cabelos castanhos-claros, a jovem escondia-se daqueles que procuravam a adaga de prata.
Sons metálicos ecoavam por cima de todos os respirares, gritos e restantes bárbaros sons naquela popular estrada. Passo atrás de passo. A canção de quem perdeu a luz da sua própria alma. Os lamentos dos inocentes, dos quebrados, dos para sempre desaparecidos nos desertos da vida. Assim ela caminha, rápido e com cuidado, pelas estradas, sem nunca parar. Olhando para trás, vendo homens armados seguindo-a sem que os seus olhos embatam nos dela, sem tendo cuidado com as pessoas ocupando a poeirenta rua, que se ramificava em muitas outras. Não um, nem sequer dois ou três. Vinte e um homens a marcharem com a brutalidade de mil animais selvagens e duzentos guerreiros de outro tempo.
Ela passava. Rezando… Talvez apenas pedindo, fosse a que fosse… Uma súplica silenciosa a uma entidade superior. Passa atrás de passo. A melodia de uma viúva nos braços da sua filha mais velha. O choro de uma criança que caíra no de terra e pedras. Assim ela ia rumo a um destino há muito alterado, pois o futuro mudava com cada ouro derramado. Isso, ela sabia; acima de tudo, ela compreendia o ciclo da vida. O amargo a acumular-se na sua boca com cada passa dado.
A capa negra voava como os movimentos e vento fresco da primavera. O andar metalizado não acabava, não se afastava e não desaparecia. Nunca iria desaparecer. Ao longe ela via a escadaria que a levava à praça central; um lugar amplo, onde muitos mercadores vendiam as suas recentes cargas e os aldeões compravam sem parar. Apenas essa palavra preenchia a mente dela naquele momento, “parar”. Assim era, assim sempre seria, até alguém virar a esquina e dizer “continuar”.
Marchar, marchar… Passo e passo, uma canção de embalar para quem nunca conheceu outro som durante toda a sua curta vida. Crianças a brincarem, ignorando os choros daquelas que caíram. Mulheres gritando e novas esposas levando as roupas sujas à fonte. Tudo corria, tudo continuava. Sim, continuava… E também a jovem o fazia. Protegendo a adaga de prata, não a mostrando a quem quer que se aproximasse. Guardando essa arma invisível no seu interior. Nada lhe roubaria a prata da sua alma. Nada levaria o sangue a derramar-se sobre a areia do caminho. Caminhando apressadamente ela foi. Rumo ao reino dourado.

2 comentários:

Lucas Tosoli disse...

Lindos os teus textos! Escolhes as palavras muito bem para tocar o coração das pessoas! Continue escrevendo, abraços (:

Jëë Reis disse...

Obrigada Lucas! Todos os comentários me dão forças para continuar a escrever. Muito obrigada. :)