Este é o local onde as palavras encantam.
Os escritores também tem sentimentos. Se sentiste, diz. Assim estaremos todos no mesmo nível de partilha.
Mostrar mensagens com a etiqueta Mundo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mundo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 29 de março de 2014

Um novo dia (Micro-conto I)



Andava a arrumar as pastas no meu computador e encontrei um documento com alguns micro-contos que criei o ano passado para um passatempo. Infelizmente não ganhei. Porém, achei bom partilhar.




O dia começa solitário e eu passo pelo jardim como sempre. Vejo uma mulher sentada num banco a dar comer a pombos. E chora… Sentei-me ao seu lado e cantei. Olhou para mim e sorriu. Sete dias passaram. Nunca mais a vi. “Partiu.” Pensei eu. Chorei pela primeira vez em anos. Não a conhecia nem ela a mim, porém o conforto foi suficiente. É um novo dia.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Rua Sem Saída

Para a Mariana. A minha segunda irmã, a minha cupcake baker. Love you. Be happy.
(Batman lover forever) *-*


Um ruído vindo de uma rua sem saída ecoou pelos paralelos e paredes das casas que formavam a escuridão naquele lugar. Não muito longe dali, uma melodia constante, pingo atrás de pingo, gotas de água a caírem numa poça. Esse som repetia-se pela ruela. Ping… Ping… Ping… Um som a combater pela atenção dos monótonos homens de negócios, que por ali passavam, com os seus fatos lisos, enfadonhos e desprovidos de personalidade. O ruido na rua sem saída era mais forte.
O que quer que fosse, que arrepiava o meu corpo com os gritos de desespero e agonia, tinha a voz mais aguda alguma vez ouvida. Nem parecia ouvir. Como se o som fosse inaudível. Porque não fazia ele o mesmo comigo? Ou porque não derretia ele os ossos dos que passavam na rua principal? Alucinação… Loucura… Nenhuma outra explicação.
Queria fechar os olhos e correr para longe dali. Queria virar os pés e partir. Obrigar o meu corpo a não ceder à tentação de avançar. Ping… Ping… Ping… Grito abafado. O vento embateu no meu corpo. Trazia o leve cheiro salgado. Sangue e suor… Inclinei-me para a frente e fechei finalmente os olhos. Respirei fundo e esperei. Não sei pelo que. Mas esperei…
Abri os olhos. As sombras menos escuras, no fim da rua sem saída, lutavam. Alguém lutava. Andei… Andei com curiosidade e não com coragem. Fui descuidada. Não devia ter andado. Fui de encontrão com um homem de negócios. Ele ralhou. Chamou-me nomes e nem sequer esperou pelo meu pedido de desculpas ou para me ajudar a sair do chão lamacento. Humilhação não se comparou ao som contínuo vindo da minha direita.
Levantei-me, caminhei e caminhei. Senti lágrimas a escorrerem pela minha face. Cheguei ao fim da rua sem saída. Os gritos pararam. Nenhum som ecoava sem ser o das gotas de água ao juntarem-se à poça. A lua escapou pelas nuvens. Lágrimas caíram. Tanta destruição. Tanta dor. Miserável e descontrolado som… Agora compreendia. Agora sabia… Nada mais do que a verdade.
Um respirar tocou-me de leve no pescoço. Recusei-me a virar e ver quem era. Tinha medo. Tanto medo… E no fim, quando eu pensava que nada mais podia partir o meu corpo, a minha alma, tudo o que fazia de mim aquilo que era, o respirar parou. A sombra levou a sombra. E eu desabei no chão húmido da rua sem saída. Olhos fechados… Dor, miséria, medo… Alivio. Vira o mal, vira o bem resgatar as sombras e leva-las para a lua. Não seria tão descuidada.
Não seria um… O que foi que vira? Não me lembro. Um sonho… Um fim…

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Último suspiro das ruínas



Um suspiro, um beijo, um abraço, uma caricia profunda do arrepio do vento. A mão que agarra a mão, o corpo que puxa o corpo numa aventura da vida. Ou o que resta dela… Sabe Deus as consequências do céu estrelado, do olhar parado e ignorante do viajante, e da última armadura de metal. A demorada e suave espera por um primeiro sorriso. Sorriso que não lhe pertence. Que pertence unicamente a quem o expressa e nunca a quem o recebe. Porque quem o observa nem sempre o compreende. Sabe Deus o que se faria se não se pudesse sorrir para quem entende.
O golpe não seria nada, comparado à desilusão que poderia sentir se a minha mão não vibrasse com a imagem da guerra. Como se ela própria desejasse ser arrancada do meu corpo para fugir, seguindo o caminho que a leva ao campo. Desilusão… Triste é imitar emoções que não sentimos e sentir aquelas que não serão aceites. Isso é desilusão.
Olhar nos olhos de outra pessoa e pedir a Deus que ela não tenha tais pensamentos. Ideias preconcebidas pelo resto da sociedade. Pedir explicações quando sabemos a verdade. Ninguém sabe o que se passa. Desilusão é ouvir alguém afirmar que nos compreende. Ninguém sabe o que sentimos. Desilusão ao olharmos para as nossas mãos e ver o sangue, invisível para o mundo, correr como uma cascata. Desilusão em nós próprios.
Cobarde… Roubar um beijo, pois mais vale partir consumado que desiludido e zangado com a falta de coragem. Correr elas ruas desertas numa manhã de inverno, enquanto a chuva habita os céus e o sol tenta ser livre. Tal como todos os seres humanos presos na jaula de vidro, tentar sair. Pessoas como eu olham para trás e, tentando escapar dos olhares malignos, recusamo-nos a desistir. Assim pensava…
Saltar as barreiras da grande casa assombrada. Ver as ruínas, os quadros queimados e as folhas envelhecidas no chão. Louvar os bons momentos. Pedir por mais beijos, mais abraços, mais aventuras guiadas pelas mesmas mãos, que me tocam quando o perigo é iminente e o medo é excessivo. Sonhar com cores e sorrisos, que nunca serão meus. Fechar os olhos e respirar o aroma da destruição e beleza. Toda a contradição que em tempos fora apenas uma diretiva.
A lealdade do viajante para com toda a magnitude das ruinas. Vezes e vezes, ele voltava à casa. Nós voltávamos… Eu voltava. Mãos cerradas, sonhos na mente, olhos a cintilarem de possibilidades. Sabe Deus as possibilidades que verdadeiramente me agradam. E apenas Ele sabe o quanto a caminhada custa, porque para me é apenas mais um dia. Mais uma das muitas loucuras a que sou sujeita.
As faíscas que saltam no meu coração em cada instante da minha vida. Imperfeitas e incontroladas luzes multicolores espalhadas no horizonte. Intricado padrão negro na pele bege. Beijos perdidos, sorrisos desaparecidos, raios e explosões. Tudo leva à petrificação. Tudo faz lembrar aquele passado, aquela loucura, as aventuras que tivera nas mãos do destino. Se tal entidade realmente existe. Tudo, pela última vez, provoca a solidão, a tristeza que durante anos foi e veio no meu coração.
O cartão lançado para a fogueira, consumido pelo mesmo fogo que horas antes nos aquecia, na casa assombrada inevitavelmente nossa. Enquanto as chamas se soltam dos troncos de madeira secos, e tentam o velho e húmido cartão, os viajantes vêm a lua resplandecer. Ele, guarda das memórias insignificantes, escurece. O fim… Desfeito em cinzas no chão da lareira. Dois beijos, dezenas de braços e um longo adeus. Um contínuo e arrepiante grito…
Pobre criança, deixada no campo, desampara, desiludida. Destruidora de almas… As memórias são vagas. O tempo passa pelas minhas mãos como o vento. Mãos frias… Nem mesmo o calor de outras as tornar normais. No campo, a criança dá dois passos na minha direção. Já não é uma rapariga. É a única que vejo. Não preciso de lhe tocar para compreender que ela não existe. Nada no sonho existe. Não neste preciso momento. Passado… Futuro… Ineludível e imperfeita loucura.
Nós… Que nós? Nesta casa arruinada não existe nós. O viajante partiu, o cartão queimou, a rapariga evaporou, o campo fica negro. As mãos frias, vermelhas e trementes agarram o que nunca foi meu. O que nunca será meu. O que não existe. Para quê? Para depois partir? Para agradece a Deus a aventura que nunca tive? Aquela que Ele sabe ser a minha vergonha, o meu desejo, a minha loucura… Para trás repousa um suspiro, um beijo, um abraço. Uma eterna confissão. Nada mais. Apenas pó e ruínas.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A Existência do Mar de Rosas



O som cortante do vento penetra a minha mente cansada. Os meus olhos fecham. Pálpebras pesadas e iris gelada, como se o pilar daquilo que sou tivesse coberto de gelo e frio avassalador. As palavras perdidas no vazio que é o meu coração. Perdidas no fundo do abismo aterrador. A suavidade com que a escuridão me atinge é inimaginável. A imperfeita dose de corrupção e solidão é imbatível naquele lugar. O sofrimento provocado pela tentativa de me proteger do líquido primitivo, é solenemente pintado na minha pele.
Petrificada e consciente dos horrores da, poluída e imortal, alma que habita o meu corpo decide fazer. Parto continuamente o vaso sagrado da minha infância, enquanto a música do violoncelo toca brandamente. Nego a minha loucura. Nego a sua existência maquiavélica. Mutilo aquilo que resta da minha sanidade e sorrio enlouquecida com o sangue a escorrer pelas minhas mãos.
Sangue que não é meu. O meu perdeu contra o líquido fel, que reinava nas masmorras da minha mente. E o sentimento de derrota não ajudava a minha verdadeira natureza. Fazia-me vibrar, sorrir ao ver as minhas mãos tingidas de puro escarlate. Pés assentes no fundo da pequena poça de mel vermelho. O som, agora frenético, do instrumento mortal torna-me sedenta por mais um copo do néctar que fora coberto de vida. Parti a minha pureza em milhares de pedaços. Não havia volta a dar depois de estar um passo mais perto do terror.
Sujo as paredes brancas com aquilo que não é meu. Satisfaço a minha morbidade com o deleite de ver cobertas todas as imagens do incerto. De ver as telas por pintar, marcadas a seco pelos impuros. Loucura ampliada pela música que ecoa no espaço infinito da saudade. Lágrimas a escorrerem pela minha face, como água a descer numa cascada. Lábios vermelhos a tremerem num sorriso macabro.
As notas da canção saltam pelo ar e refletem nas paredes manchadas. A beleza da imperfeição e da insanidade não me deixa descansar em paz. Não há paz. Apenas sofrimento, satisfação e pesadelos. Somente brilha o fogo consumidor durante a noite. Escuridão em redor da solidão. Sangue derramado no vaso da mente. Sangue que não é meu. Sangue que vi ser espalhado pelos anjos da noite.
Perdição no mar de rosas. Se é que tal maravilha exista. A vida perfeita, sem preocupações, sem momentos insanos. A sorte de poder algum dia nos vermos perdidos nesse mar é a ambição de milhares. Até, talvez, minha. Talvez também, eu realmente queira deixar o quarto tingido para viver num mundo onde as únicas cores são as flores e as árvores. Onde as únicas cores vivas são as dos animais e da nossa pele. Será o absoluto adeus aos olhos e cabelos arco-íris. Será unicamente branco.
Não. Não acredito que seja esse o destino que desejo escolher. Um mundo onde perderíamos a loucura. Que mundo seria esse que aquilo que nos torna sãos é aquilo que nos priva da nossa escuridão? Nada de nada. Ocorrerá o fim antes do fim. O que parece bom é na realidade mau. Nada é o mar de rosas. E se tal mar exista então foi altamente elevado a uma existência improvável. Duvido que a sua existência seja tão simples. Não será então por amor. Nem mesmo pureza. Será por loucura!
Será por essa razão que recusarei a entrada no barco. Para ter a insanidade que tenho direito. Será pelos olhos cansados e as paredes tingidas. Será por ver os anjos da noite cobrirem a minha casa com véus de escuridão e luminosidade. Para ter a minha vida como deve ser e não pincelada perfeitamente. A imperfeição é o que me faz sorrir. É isso que me faz molhar as mãos no lago vermelho e sentir-me demente. Porém, é o que me leva a levantar de cada vez que caiu no abismo. A sua existência é o que me leva a sair e a abrir os olhos. Porque nada existe neste mundo se um pouco de loucura e fé.

sábado, 12 de outubro de 2013

Ilusão no Mar de Sonhos



Chuva bate violentamente na janela do meu quarto. Oiço o meu nome num grito atormentado. Um arrepio penetra a minha pele e percorre os meus ossos. A dor atinge-me como um raio. Escondo-me debaixo dos cobertores no canto da jaula de pedra, madeira e tecido. O meu nome ecoa no ar, tão alto como a tempestade. Três explosões de luz ocorreram, iluminando todos os pingos, que aceleravam a descida. Pingo atrás de pingo... O embater constante e furioso no vidro e no telhado. Grito atrás de grito. Sofrimento e raiva.
A luz branca, refletida nas quatro paredes, assombra momentaneamente a minha alma desnorteada no teto azul-escuro. O cobertor de lã separa-me do frio. Afasta fracamente a minha escuridão, impedindo-a de corromper todos os seres da rua. Petrifiquei ao ouvir novamente o grito das almas penadas e o choro das almas perdidas no colossal manto lamacento, que cobre o mundo.
Sentia a minha alma chorar, gritar e explodir energia enquanto o meu corpo termia descontroladamente de ódio pela minha própria condição, sofrimento e devido ao terro no quarto. Terror, este, que competia continuamente com a minha escuridão. Termia e arrependia-me dos meus pensamentos chegarem aquele ponto. Não podia culpar mais ninguém. Apenas eu, puramente aquela que escolhera lembrar e chamar os seus demónios.
Levantei-me do chão de madeira. Cobertor vermelho aos meus pés, corpo pesado. Um novo grito poluiu o ar. Vindo da rua, ele vibrou a prisão. O meu nome soava imperfeito e áspero na voz do ser da noite. Será uma ilusão? Bati na parede, porém as vozes constantes continuaram a atormentar-me. Nome… O nome seguido de risos maquiavélicos. Não lhes dera esse direito. Era o meu nome. Era a minha mente. O meu mundo… O meu sonho!
Sacudi a mente contra a parede escurecida. Esmurrei três vezes o mesmo lugar e tombei na madeira. Quedei-me impossibilitada de derramar uma única lágrima, proibida de grita com a minha, rouca e vulgar, voz. Fatiga, dor e raiva tomaram conta dos meus olhos. Recusei-me a fecha-los. Fixei o azul profundo desgasto. Sombras fabricadas a partir da escuridão e da tempestade luminosa. Todas elas bailavam na jaula de pedra e tecido. Neguei o convite para me juntar a elas. As vozes no exterior perturbavam-me. No entanto, a melodia silenciosa tentava a minha pele. Vi-a ser absorvida e fundir-se ao meu corpo.
Nunca sentira o meu ser tão leve e relaxado. Os gritos tornavam-se distantes, os choros paravam. A minha alma regressava. O meu nome desaparecia da boca dos seres da noite. A tempestade dissipava, deixando apenas a luz da lua brilhar por entre as nuvens. Fazendo os pingos da janela lembrar os cristais do sonho de infância, a claridade sorria. Início da dança. Salvar a vida e libertar os demónios e sombras em mim. Fim do pesadelo. O será ilusão no mar de sonhos?