Este é o local onde as palavras encantam.
Os escritores também tem sentimentos. Se sentiste, diz. Assim estaremos todos no mesmo nível de partilha.
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domingo, 23 de junho de 2013

Os demónios e abismos do meu dia


Para a Joanita. Com muito amor e carinho. Apenas mais um sorriso e mais uma lágrima.
 
Frio… Escuro… Caída no chão de mármore, desorientada do tempo e lugar. Lágrimas escorrem dos meus olhos irradiados de raiva e tristeza. Quem nunca sentiu esse sentimento? Ódio. O doce horror do dia-a-dia. A máscara gasta que usamos para lutar contra aquilo que acreditamos estar errado. E eu melhor do que ninguém sei a que é que esse sentimento sabe. Fel e viscoso… Nada existe para além disso e o mar torna-se purulento. As rosas murcham e a chuva é ácida. O piano toca freneticamente a melodia da destruição.
Mantenho-me imóvel, ainda sem saber onde estou ou em que tempo foi parar. O piano deixa de tocar dando espaço no ar ao silêncio. Tomada pela tentação levanto-me e caminho em direção ao nada em meu redor. No meu coração acumula-se o desejo incontrolável e sentir o liquido aveludado a escorrer das minhas mãos. Sinto arrepios nos braços e tremores nas pernas só de pensar. O terror que os outros devem sentir quando me olham nos olhos e não veem nada mais do que um monstro. Oh! O quando isso me faz feliz. Ver o medo a espalhar-se dos olhos para a cara daqueles insolentes.
No entanto continuou aqui. No escuro. Com ou sem desejo, com ou sei ódio, com ou sem paixão… Porque este é o meu castigo. Este é o meu pesadelo. Nunca tendo presenciado um falso pesadelo enquanto durmo, sou consumida por um durante o dia. Sou sujeita a viver na imensidão que é o sofrimento. Talvez se esquecesse todos os planos de destruição e me dedicasse ao sol, o pesadelo terminaria. Talvez… Pensei que sim, mas não podemos fugir uma vez lançada a pedra. Este é apenas mais um momento que tenho de ficar a observar o nevoeiro e a deambular por ele a dentro.
Já perdi as contas das vezes que vi o vermelho chegar e que mesmo assim continuei a seguir a luz. Não ajudou. O negro continua a cobrir-me os olhos. Um novo ciclo começa e o piano retoma a melodia. Perdi-me no tempo enquanto o mar se tornava purulento e as rosas murchavam. Sinto-me a entrar noutro mundo e mais uma ronda recomeça. Mais um mundo de sofrimento. Mais uma desilusão. Mais uma perdição intemporal.
Corro pelos campos de flores tão livre e encantada que nem me reconheço. Não sonho nem relembro, apenas vivo o momento. Não olho para trás, não revivo as memórias do passado e daqueles que deixei naquilo que antes fora o meu lar. Nem o vento contrário e frio me impede de continuar, alias, ainda me traz mas ansia de alcançar a terra das especiarias. Fluo pelo campo indo contra o vento, ultrapassando as muralhas. Rodopio no meio do campo totalmente inconsciente do tempo. É só mais uma das camadas do meu pesadelo. O não reconhecimento do passado.
É aquilo que não posso prever ainda que seja sempre o mesmo. Será a degradação e reconstituição. Não irei parecer enquanto o mundo não quiser. Irei continuar a percorrer as sete camadas enquanto o tempo e espaço não estiver satisfeito com o meu desempenho. O aborrecimento, o ódio, o desejo, o sofrimento… O final que nunca chegará. Os andares da minha alma. Os meus abismos… Os meus demónios… A minha autodestruição…

terça-feira, 4 de junho de 2013

Passo a passo no caminho de areia


Para a Rute. A minha 'twin', a minha irmã de outra família, a minha melhor amiga.

Um trovão rompe o céu com uma explosão de luz. Eu era nova e a história não tinha sido ainda contada. Mais um trovão e mais uma estrofe cantada pelos anjos. O mar nem sempre fora monótono e o jardim desprovido de essência. Eu bem me lembrava do tempo em corria por entre os canteiros e pisava a relva húmida. Do tempo em que deixava pegadas na areia molhada porque me fazia sentir livre. Sem destino, com sonhos e com expectativas de um futuro que poderia nunca acontecer. Mais um trovão… Mais uma memória despedaçada no abismo.
Nada me salvaria da tentação. Da doce tentação de ver as memórias de um passado longínquo. A tempestade aproxima-se e eu mantenho-me sentada nua aos olhos dos anjos, ouvindo as suas melódicas vozes cristalinas. As harpas tocam à medida que mais um trovão explode no ar. O mar bravo embate em tudo o que encontra no caminho e as flores do jardim há muito que morreram. E eu vou. Continuo a caminhar com toda a energia que tenho para dispensar. O sabor a salgado afoga-me a garganta, enquanto o novo trovão cega-me por segundos. Novamente passos na areia insipida…
Larguei os sapatos no rochedo e caminhei. Marquei pela milésima vez o chão arenoso. O mar começava agora a acalma, ainda assim eu sabia perfeitamente que ele era imprevisível e que mais cedo ou mais tarde voltaria a rebelar-se contra a costa. Vi uma luz no horizonte da praia. Ora aparecia, ora fugia para o outro lado do mundo. A estrela artificial daqueles que procuram rumo. Era capa de jurar que sentia as almas das flores comigo. Seria eu a sua estrela guia? Ou seria eu apenas uma fonte que lhes cede energia para que ela se mantenham fixas no mundo onde vivo? Dois passos firmes… Pés enterrados na areia fria…
O cheiro da maresia embriaga-me e o som da tempestade juntamente com o rebentar das ondas nas rochas refortalece-me. O “aqui” e o “agora” não só nada mais do que lugares e momentos que rapidamente são levados pela corrente. Por cada três passos para o futuro, dois deles são lavados pela água desapaixonada, carenciada de vida. E a tempestade continuava, iluminando a minha cara mórbida. Senti a energia das almas perdidas e os meus passos tornaram-se cada vez mais fortes, deixando pegadas mais profundas e salientes.
Deus me acuda! Nada me parecia libertar da tentação que as memórias me provocavam e da sensação delirante proporcionada pelos sentidos. Decidi continuar. Talvez fosse para o melhor. Perder-me na praia e ser levada pelo vento da tempestade. Ficar curada… Talvez… No infinito recente...

domingo, 31 de março de 2013

Dois passos, um sonho, três desilusões e um presente

     Um suspiro… Um sorriso… Um sonho perdido no infinito mar de ruínas onde quem reina é a Desilusão. Duas voltas ao mundo não chegariam para atenuar a dor. Doce alma minha foi deixada à deriva no horizonte estrelado… E tu? Foste substituída pela maldição da visão… Tu que durante tempos lutaste contra dragões e batalhaste em guerras nos confins do guarda-roupa. Tu que tentaste libertar-te da magia negra. Tu que tentaste ajudar-me a viver. Tu que durante anos sofreste em silêncio tentas agora regressar a mim. Tentas arduamente livrar-me da maldição.
     Duas passos em diante… Três passos para trás… Estás sempre um passo atrasada. Talvez eu não valha o trabalho de ser salva. Sim, deves voltar para mim mas não deves lutar… Eu abro o caminho… Eu elimino qualquer obstáculo que possa ser criado… Talvez deva ser eu a derrotar a maldição… Dois suspiros… Três lágrimas… Um sorriso leve… Compaixão… Talvez a maldição seja na verdade o dom. Doloroso… Os dons nunca são tão fáceis por esse motivo é que eles são chamados de “maldições”. Dor… Lágrimas… E no final alegria por ter sobrevivido, por ter feito algo de bom com o “dom”. Nada mais…
     Miséria… Pobreza… Felicidade… Demência… Amor… Todos temos… Todos vemos… Todos passamos ao lado e tentamos fechar os olhos. Três saudações… Um adeus… Dois abraços apertados… Daqueles em que os nossos braços se recusam a largar a outra pessoa. Maldição… Não mereço? Não merecemos todos? Será que ninguém merece? Não há respostas. Três mil perguntas… Uma resposta… Sete perguntas novas… O tudo e o nada juntos. O coro dos anjos invisível à nossa perceção.
     Um sonho dissipado… Um novo sonho construído através de desejos e pedidos à primeira estrela da noite. Dois desejos pedidos ao génio. Coragem… Confiança… Ao terceiro nada mais que a liberdade. Um génio da lâmpada libertado do contrato e para sempre livre. Amizade… Bondade… Os desejos pedidos ao génio e os pedidos suspirados à estrela são apenas tentativas de trazer de volta a inocência e pureza que quando criança possuía.
     Não serei a luz… Não serei o fogo… Não serei nada mais nem nada menos que uma peça do meu próprio jogo. Não serei o corvo que diz “Nunca mais…”. Nem serei a Annabel Lee, jovem amada do poeta e cujo amor era cobiçado pelos anjos e demónios. Serei eu própria! Amaldiçoada com um dom e com uma alma de guerreira feiticeira. Conquistarei os corações dos anjos e demónios com as palavras mágicas que me foram concedidas. Tudo isso, nada menos…
     Abraçarei os outros com os braços com que enlacei o meu corpo partido. Ajudarei a colar todos os bocadinhos do vaso de porcelana que se vão partindo ao longo da vida. Chamarei quantas vezes forem as necessárias a minha alma. Lutarei pelos sonhos lado a lado com a Primeira Estrela e a Lua. Libertarei todos os génios dos seus contratos. Sorrirei para o Sol tal como ele me sorri. Suspirarei por detrás das máscaras que me vejo obrigada a colocar. Tudo isso, nunca menos…
     Retirarei quando necessários todas as camadas de mim. Levarei os outros a mundos desconhecidos, mundos de sonho e imaginação, mundos distantes que só eu conheço. Abraçarei o dom amaldiçoado… Dom das palavras… Dom da visão… Suspirarei mil vezes por amores… Farei outros seres emocionais pelas minhas histórias… Olharei para mim e para o mundo e direi: Dois passos em frente, um sonho no futuro, três desilusões no passado e um presente contínuo.

terça-feira, 26 de março de 2013

Sou a Lenda, Não Irei Julgar

     Instalando-se o escuro numa aldeia onde a vila é sempre o mesmo, onde as histórias são sempre de outros locais e nunca nada se passa ou nunca ninguém viu passar naquela aldeia, mas instalando-se o escuro chegam o tempo das histórias, das cantigas e das lendas à volta da fogueira, pequeno divertimento para preencher pequenas mentes. Ainda assim não serei eu a julgar, eu que apenas passo de uma lenda na mente dos aldeões, não serei eu a contar a verdade, nem nesta noite nem na manhã seguinte.
     Que o mundo vive na sua escuridão e monotonia, alheio às enumeras possibilidades que podemos ter se apenas olhássemos, alheio aquilo que nasce na sombra do carvalho e na antiga toca do urso pardo. Que viva o mundo apenas com o seu suposto medo que eu viverei com o meu. Que as palavras sagradas as guiem uma vez que não serão as minhas nem as das antigas histórias, que são constantemente ignoradas, a ajudarem o mundo a viver.


O texto que se segue é pequeno, sim, mas isso não importa.
Foi iscrito para uma amiga minha, na brincadeira, numa aula, numa folha dela.
Ela que não se esqueceu dele. Obrigada pelas conversas e pelos elogios.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O calor das memórias, uma realidade fria e um futuro imprevisível.

    Parecia um sonho. O lago estava calmo e a floresta em redor silenciosa. Demorou um minuto até o ar estar coberto de risos. A menininha brincava com os seus guerreiros, que um dia lutariam de espada de metal na mão e de magia e coragem no coração. Aquela realidade nunca poderia desaparecer. Aquele momento ficaria na memória. O sol aquecia a pele molhada dos irmãos. As pequenas brincadeiras, lutas de irmãos... Dois rebolam e ela risse enquanto eles são separados pelos mais velhos. Ela era aquilo que os mantinha juntos, era a estrela que os ajuda a ver o caminho certo. O vento trazia todos os aromas. Sentia-se o doce aroma da flores do grande jardim e dos preparados da cozinha. Trazia ainda o som dos cavalos a correrem e das espadas a embaterem contra os escudos. A infância não podia ser melhor. Estar rodeada de pessoas que a amam. Como não poderia ela ser feliz? Como poderia não desejar estar presa naquele momento?
    A verdade é que aquele momento era outra realidade, uma realidade distante e que agora parecia mais quente que qualquer outra memória que antes fora revivida. Não só parecia um sonho como se tratava de uma memória revivida num sono profundo. A realidade era demasiado fria para a Pequena querer viver nela. Tudo pareceu acontecer demasiado rápido. Perder o amor, os irmãos, a liberdade e a terra. Navegar num mar desconhecido, indo em direção a uma terra apenas descrita nas histórias de batalha. Ter de largar o mundo acolhedor para partir nos braços daquele que a salvou mas que ao mesmo tempo a capturou. Perder-se cada vez mais, sem voz para se rebelar contra os Deuses, a sua avó e o rumo pela qual o seu destino a levou.
    O vento que na memória trazia sons e cheiro quentes, acolhedores e familiares fora substituído por um vento frio, mortal e que trazia sons assustadores. Só se sentia o cheiro do suor dos homens sobreposto com o cheiro da água salgada. As ondas não eram nada como aquelas que ela se lembrava de ver a bailarem com as rochas e a areia da praia. Estas eram violentas e vibrantes. E não era apenas o vento que cortava qualquer fonte de calor de tão gelado que era, a água era mais cruel que a do lago. A voz forte dos homens e a sua língua brusca não passava de mais um símbolo de que o pesadelo tinha-se tornado realidade. Tudo neles era violento, tal como as histórias que ouvira em criança.
    Fugir não parecia ser uma opção a considerar naquele momento, o mar era o que a rodeava, talvez devesse esperar e fugir quando tudo parecesse a seu favor. E assim o fez. Esperou impacientemente com apenas duas companhias os seus pesadelos e o homem bárbaro que falava a mesma língua que ela e que teimava em fazer com que ela comesse algo. O barco avançou e o mar continuava violento, prevendo que a vida da Pequena (nome dado pelo capitão a jovem) já não seria tão simples como antes e seria mil vezes mais dolorosa do que até então.
    Por fim, terra firme. Ainda assim, aquele lugar não era de todo familiar aquela rapariga que nunca sairá do conforto da sua terra mas esta era a oportunidade esperada, depois de afastar o homem que a guardava começou a correr. Não foi longe e mais uma regra barbara foi-lhe exposta. O capitão lutou por ela... Ela era sua, ela era como uma mercadoria... E na paragem seguinte as suas suspeitas comprovavam-se, aquele capitão era o seu dono e tinha planos claros para ela, infelizmente ela não sabia o quanto perigosos esses planos seriam. O futuro começava cada vez mais a parecer imprevisível.
    A sua essência começava a desaparecer, constantemente lavada pelo mar gelado. O destino começava a mostrar que pode ser cruel e todas as suas ações pareciam não corresponder às suas expetativas. Os sonhos continuavam a ser o seu tormento e a morte sussurrava ao seu ouvido. Os acontecimentos que tinham ocorrido antes começavam a fazer sentido agora. O seu sonho maldito, que durante anos não parecia fazer sentido, tornava-se claro agora, mas mais perguntas surgiam. Ela iria padecer tal como os seus irmãos, tal como o seu amor. Ela iria desaparecer com o resto do mundo, nada parecia fazer sentido se não esse destino. A sorte mostrava que não estava do seu lado e ela via-se agora entregue ao desespero.
    Felizmente a sua avó manteve-se presente, ainda que levemente. Disse-lhe para ela lutar pela vida e pelo mundo. E assim ela ergueu a cabeça e começou o novo capítulo. Numa nova terra no horizonte. Numa realidade fria, com um futuro mais fino e imprevisível que o gelo, com as memórias quentes e acolhedoras da sua infância no coração e o destino do mundo nas suas pequenas mãos.
 
 
    Este texto é sobre a Cat (personagem da Saga das Pedras Mágicas de Sandra Carvalho) e sobre aquilo que lhe deve ter passado pela cabeça durante o tempo em que esteve no barco depois de ter sido resgatada por Throst e levada para a terra dos Vikings. Para quem conhece a Saga espero que gostem da minha visão daquele momento. Para quem conhece espero que este texto vos leve a ler os livro da Sandra pois eles são bastantes especiais e repletos de mistério e magia.
 
(P.S.: Este texto também se encontra no blog *FanFic's Sandra Carvalho*.)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Aquilo que eu perdi para o monstro em mim

          Tristeza… Um grande sentimento que nos consome pouco a pouco. Eu sei o que é. Eu estive, estou e continuarei a estar triste. Estou triste por causa de todos os assuntos que não resolvemos. Estou triste por não poder voltar a falar contigo. Sei que tive culpa. Sei que tentaste naquele dia quente de verão. Sei que fomos criaturas néscias que não pensaram no que estavam a dizer. Sei que tive mais culpa que tu. Sei e peço desculpa. Desculpa por ter sido a primeira a destruir tudo. Desculpa por não ter ouvido. Desculpa por ter sido a ignorante e mais infantil pessoa que alguma vez conheceste.
          Se o universo e Deus me autorizassem voltaria atrás no tempo e tentava não cometer os mesmos erros. Tentava dar-te a mão em vez de te empurrar. Tentava lutar contra a raiva, contra este outro monstro que anda disfarçado. Se não conseguisse tentava ao menos ouvir-te. Serei sincera. Não ouvi porque tinha medo. Medo de me arrepender daquilo que pudesse dizer no calor da batalha. Medo que o monstro voltasse e que mais uma vez voltasse a massacrar as tuas tentativas de socorrer aquilo que já estava ferido. Foi demasiado fraca. Ele estava disfarçado novamente e eu deixei-me ser apanhada, acabando por me arrepender mais uma vez da reação que tive.
          Durante vários dias pensei, chorei e voltei a pensar. Torturei-me mentalmente por aquilo que fiz, não fiz, disse e não disse. Torturei-me ao ponto de não conseguir dormir descansada e de amaldiçoar aquilo que sou. Não adiantou de muito. Não posso amaldiçoar uma pessoa que já tem uma maldição. Mesmo assim tentei. Tentei lutar e ponderei novamente em novas formas de te abordar. Nenhuma me pareceu a mais indicada. Quando finalmente arranjei uma que pensava eu que era uma boa ideia, cai novamente. Não previ aquele resultado. Mais tarde é que me apercebi que mais uma vez aquela maquiavélica aberração tinha-se penetrado na minha mente. Não é desculpa. Devia ter-me apercebido de tudo. Agora não há muito a fazer.
          Neste momento acho que não quero o teu perdão. Quero apenas que me oiças. Apesar de não ter o direito de te pedir isso, é aquilo que mais desejo. Gostava de poder voltar do zero. Começar tudo de novo. Infelizmente isso é impossível. Somos crescidos. Devíamos resolver os nossos problemas de forma civilizada, ainda assim eu quebrei aquilo em que acredito. Deixei-me levar e agora pouco posso fazer. Pensei que talvez se eu me explicasse tu visses nos meus olhos e sentisses nas minhas palavras que aquilo que digo é a pura verdade. Que me arrependo todos os dias do que aconteceu. Que não existe um único dia em que eu não pensei o quanto gostava de voltar atrás no tempo.
          Por agora ficarei à espera. Talvez um dia as minhas palavras possam ser ouvidas por ti. Talvez um dia eu me possa perdoar pelo que aconteceu. E então depois tu também me perdoes e que não haja mais tortura e mais sofrimento para nenhum de nós. Mas até esse dia vir, eu ficarei aqui. Presa na minha prisão mental, arrependendo-me por tudo e desejando não ter este monstro como parte de mim. Por isso até breve caro amigo. Certamente nos iremos ver um dia quando todo este nevoeiro levantar e nos estejamos prontos a deixar este fardo ficar na caixa, bem longe daqui.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sempre fui e sempre serei.


Sempre fui e sempre serei. Quando o sol se apaga, quando as nuvens começam a descender em espiral, mesmo quando Deus parece querer ver a tempestade destruir tudo o que com trabalho e paciência foi construído, é em todas as alturas que normalmente apenas a Mãe Natureza e Deus são os mediadores que eu sempre fui e sempre serei a culpada. E uma árvore cai, eu sou a culpada, mesmo que essa árvore estivesse do outro lado do oceano. A minha simples existência parece ser a causa de desastre.

Fui a fonte de desastres invisíveis provocados por parentes inúteis que nem nesta terra cultivam os alimentos. Fui o alvo das setas que deviam ter sido armadas contra aqueles que foram os culpados inocentes, mas aos olhos da justiça na casa apenas havia e haverá uma única culpada: Essa sou eu e mais ninguém. Lágrimas derramadas, falsas e convenientes, para limpar o maléfico rasto de maldades. Quando as minhas lágrimas caem não estão sozinhas. Sangue veio, sangue virá.

Oiço as lamúrias daqueles que por não terem aquilo que querem ralham. Eu que apenas quero um pouco de compreensão tenho de virar a cara para a parede e engolir todas as viscosas palavras envenenadas, porque se dirigir uma palavra contra os Santos condenam-me de blasfémia. Tudo o que sai da minha boca é mentira ou exagero, o contrário já não se aplica. Eles são Santos. Podem só vir cá uma vez por anos, podem apenas se importar com os Seres da Justiça uma vez no ano mas não interessa. Para todos os efeitos são Santos.

Um Ser da Justiça apercebeu-se finalmente do mal mesmo assim sente-se impotente. O outro não quer saber. Eu que cultivo a terra todo o ano, que me preocupo com todas as necessidades da Justiça e das Testemunhas vejo-me sujeita a parar de ser o que sou e a deixar que eles me controlem como se eu não passasse de uma marioneta, velha e gasta. Mesmo que eu queira voar, mesmo que eu queira mostrar a todo o que eles são, não vale a pena. A batalha está ganha. Mas a Guerra ainda não acabou.

Morrerei mil vezes antes de os deixar ganhar a guerra. Retaliar-me-ei e não desistirei. Mesmo que eu morra, mesmo que a guerra seja perdida, eles não terão descanso quando eles deixarem de pisar o mundo, porque no final Deus sabe o que se passa e a Mãe Natureza dar-lhe-á um relatório detalhado sobre todas as coisas visíveis e invisíveis que eles fizeram. E eu talvez seja finalmente ouvida, aquela que era muda finalmente levantará a sua voz. Sempre fui e sempre serei a Guerreira que viverá mil vidas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sonhos, promessas e desejos esquecidos


Era um dia de sol, o vento quente fazia o meu cabelo voar e o aroma a flores que se sentia no ar era maravilhoso. A rua estava infestada de néscio, idiota, pessoas irresponsáveis e crianças perdidas mas mesmo assim o dia parecia alegre. Talvez a ignorância e a estupidez tivessem deixado as pessoas cegas ao sofrimento que os ingratos provocavam às pessoas que antes as tinham cobrido de alegria e ouro. Mais à frente crianças, inconscientes e selvagens, brincam como mais ninguém sabe. No parque um jovem promete a lua à sua amada, mal sabe ela que nem sempre se consegue cumprir o que se promete ao sabor da paixão.

Tantas promessas que eu vi voarem sem serem cumpridas, tantos sonhos perdidos por estupidas coisas, coisas fúteis. Tantos corações partidos que me apareceram à frente, tantas rosas morreram nas minhas mãos que eu cheguei mesmo a pensar que todas as injustiças, toda esta parvoíce de vida e mundo fosse culpa minha. Pensei que se negasse algumas coisas, se desaparecesse com todos os sentimentos que tinha as coisas mudariam, pensei mesmo que a minha alma fosse a culpada do cinzento manto que cobria a vida.

Tentei escrever cartas, tentei acalmar a raposa branca gigante e solitária que partilhava a minha alma com aquele ser mágico que nunca antes tinha visto; ser que inundava o meu lar mental com uma luz incandescente. Mas as ruas continuavam infestadas, no parque o jovem continuava a fazer promessas e eu continuava a ver um futuro negro para todos nós. Não sei se o que eu fiz (ainda que mentalmente) mudou para pior a vida na nossa suposta realidade. Ao longe as crianças continuam a brincar nos jardins das suas casas, no parque ou em casa de amigos e as pessoas ingratas continuam a massacrar tudo e todos sem descanso.

Vivemos num mundo doloroso. As pessoas não percebem o quanto delicada é a vida, o quanto doí e o quanto sofremos. Muitas pessoas dizem para pararmos de dizer mentiras e aproveitarmos a vida, outras dizem que devemos pensar no futuro, e existem outras que choram pelo passado e estão constantemente a criticar os que não mostram que tem pena dos outros e que não choram pelo triste passado deles próprios e dos outros. Podemos ter pena de vez em quando e atendendo a certas circunstancias mas todos somos diferentes, e ninguém pode obrigar ninguém a ser como eles querem que os outros sejam.

Talvez se as pessoas não fossem assim também não haveria muitas outras coisas: livros com personagens tão estupidas que se tornam cómicas, textos que reflitam sobre essa estupidez, ideias boas que surgiram da boca de um doido mas que foram aplicadas por cientistas, esses antes de serem considerados homens e mulheres de ciência foram tolos, e a ciência antes era o conjunto de tolices. Eu não devo fugir desse grupo de tolos. Tola sou aos olhos de todos os que não me compreendem.

Ideias de uma bruxa. Palavras de uma bruxa. Quem acreditaria se eu dissesse o que vejo quando olho para as pessoas? Agora que o sol tinha desaparecido e que as crianças estavam em casa, apenas restava os pais que vinham do trabalho, cansados mas que mesmo assim abraçam e leem uma última historia para os seus filhos. Também eu fui uma dessas crianças e um dia serei um desses pais. Agora que o jovem tinha deixado a sua amada e estava rumo a casa, eu finalmente via; as promessas mantinham-se no parque, imoveis tal como eu esperava. Por mais que ele queira as promessas não seguiam o seu coração.

O mundo em que vivemos nem sempre faz o que esperamos. Quando queremos que algo acontece nem sempre é quando esperamos e às vezes nem acontece de todo. A rapariga espera ver tudo que o seu amado prometeu mas a história dela não é a de Romeu e Julieta, aquela história de amor que a mãe lhe lia quando ela era criança. As crianças que estão agora deitadas esperam do mundo algo magnífico, mas a vida não é o País das Maravilhas ou a Terra do Nunca. Os pais que agora tentam descansar desejam que um dia os seus filhos não tenham as mesmas dificuldades que eles estão a ter mas o universo não pode garantir isso.

No fim os sonhos voam altos e os desejos ainda mais alto. Na lua a Senhora Azul canaliza todos as esperanças e escrevi nos seus inúmeros pergaminhos tudo o que no universo flutua. Não ver concretizado muitos dos seus sonhos e desejos não impede as crianças, os jovens e os adultos de pedir, desejar e até sonhar. Eles têm fé que um dia sejam recompensados e que o que realmente desejam (independentemente de eles terem ou não consciência do que possa ser) lhes seja oferecido.

Também eu peço e desejo. Também eu sonho. Mesmo sendo o que sou, tenho fé. Espero que um dia a Senhora da lua me possa recompensar; talvez me leve para a lua e eu me torne a sua pupila. Talvez um dia quando o sol, a lua e o arco-íris forem um só, eu me possa tornar na Senhora Azul, ser louvada pelos seres humanos que continuaram a viver neste mundo e conceder desejos aqueles que merecem quando merecem. Serei aquela que verá as injustiças e os sonhos despedaçados. E um dia quando as três luzes se juntarem novamente o meu ciclo termina e um novo começa, tal como com toda a vida neste vasto espaço.

sábado, 7 de abril de 2012

A história da bailarina dourada


Era uma vez, numa terra que não fica no país das maravilhas, vive uma jovem de cabelos claros e olhos cintilantes. A história dela não é nenhum conto de fadas, não existe a fada madrinha como os sapatinhos de cristal e a carruagem, não existe a mansão enfeitiçada e a rosa que brilha, não existe fadas madrinhas com os seus desejos, e definitivamente não existe nenhum final “felizes para sempre” com pétalas de rosa espalhadas pelo céu. Nesta terra e nesta história a vida é difícil até ao fim e a história desta magnifica rapariga não é diferente.

Tudo começa no quarto, fotos espalhadas pelo chão, roupas em cima da cama e a rapariga a olhar seriamente para o espelho mas ao mesmo tempo com esperança. “Espelho meu, espelho meu” poderia ela começar, mas esta realidade não é nenhuma fantasia. Todos os dias os bastardos que existiam naquela vila tentavam com toda a sua força atormenta-la, rebaixa-la até ela estar no fundo do buraco que eles próprios cavaram. Usam as palavras como se fossem espadas. O que eles não sabem é que no suposto conforto do seu quarto ela, enquanto os seus olhos fixam o grande espelho, a sua mente aponta os seus inúmeros defeitos.

Lágrimas rolam pelo seu rosto, desejos cobrem o ar e no céu as nuvens passam lentamente pelo mundo cinzento. Deitada na sua cama, ela tenta juntar todos os pedacinhos de si ao mesmo tempo que sonha com os problemas a derreterem como se fossem cubos de gelo. Pedidos às estrelas cadentes e aos anjos que a vigiam para além do horizonte. Pedidos para voar, sair da vilazinha ignorante e poder ver como é a primavera nos outros países. Dançar ao som das grandes músicas e sorrir quando o sol nasce. Amar e sentir-se amada. E talvez um dia, um príncipe encantado a levasse para longe daquela terra e lhe oferecesse um quarto cheio de velas e pétalas de rosas.

Imortal e incansável, a dor seguia-a por todo o lado. Ela misturava-se com o desejo e fantasia. Gritava por nada, fazendo a pobre rapariga dançar sozinha no escuro quarto com as lágrimas no rosto e a solidão como parceira. A dor ameaçava torná-la num fantasma que dançaria para toda a eternidade, o espelho mostrava a rapariga que antes ela fora e o vento cantava uma calma e doce melodia. A sua alma despedaçada pedia desesperadamente para que os seus pedaços se juntassem e não deixassem a ilusão abraçar a frágil memória da criança que antes vivia naquele quarto e agora apenas vivia no antigo espelho de ouro.

Dançando em sincronia com a rapariga do espelho, ela tentava aos poucos abafar a dor e seguir em frente. Lutando contra o medo, lutando contra o frio da noite e pedindo à solidão para a embalar até ela adormecer. Como por magia o quarto tornou-se vazio, apenas restava o velho espelho. “Estás à espera do quê? Tens de reagir! Tens de sair desse buraco. Ele foi cavado por inúteis e ignorantes, tu não tens de estar ai. Não pertences nesse sítio húmido e escuro. Sê forte!” A voz vinha do interior do espelho, vinha da criança que ela antes conhecia, a rapariga que ela antes fora e que agora desejar voltar a ser. Os anjos começaram a cantar e uma luz brilhante aparece no lugar onde antes era o teto do quarto.

Mais uma vez a dor rompeu a fina camada que separava a alma partida do mundo exterior. A sua respiração tornou-se acelerada e confusa, o medo ameaçava atacar e leva-la para um patamar mais fundo daquele buraco infinito. Ela tentou esticar-se, tentou tocar na luz. Ela queria sair daquele lugar escuro e assustador, virar as costas e nunca mais lá voltar. Infelizmente não conseguiu, a luz estava demasiado longe. “Dança. Deixa a dor sair e conseguirás voltar à realidade. Dança e conseguirás viver.”

Dançando apaixonadamente ela conseguiu secar as lágrimas e sarar o coração. Os anjos continuavam a cantar e a luz era cada vez maior. Era ela que ia em direção da doce jovem e não o contrário. Juntamente com a música e a luz vinha a esperança. Quando a rapariga chegou ao seu verdadeiro quarto tudo estava como antes exceto o velho espelho que começava agora a transformar-se em pó dourado. E à medida que os anjos terminavam de cantar o pó mágico voava em direção ao cabelo da bailarina.

Quando as vozes desapareceram a luz desapareceu também mas desta vez a frágil bailarina já não era a mesma. Agora ela sabia qual o seu verdadeiro poder e sabia que no futuro muitas dificuldades iriam aparecer camufladas nas asas dos corvos. Nessa altura ela apenas tinha de se lembrar das palavras da menina vestida com as últimas chamas do sol, que agora se ponha no horizonte, e da magia que o velho espelho lhe tinha dado.

A partir de agora ela teria de lutar porque a vida não é um conto de fadas e ela não vive no país das maravilhas nem tem fadas madrinhas. Apesar disso, ela tem a Força de mil guerreiros e a Graciosidade de mil bailarinas, apenas teria de se lembrar que as feridas continuam a estar lá, transformadas em cicatrizes que não doem. E se ela não se esquecer das doces palavras de encorajamento tudo acabará por se resolver; independentemente do resultado, ela tem apenas de acreditar e lutar.
Este texto foi escrito especialmente para uma rapariga que me inspirou, Vanessa Brites. Sê forte querida. Luta pelo que queres e nunca deixes que os outros te empurrem para o buraco. Lembra-te eles não são melhores do que tu e tu tens direito de seres como és. Mas acima de tudo: Sê FELIZ! (Tu mereces.)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Somos guerreiros monstros

Às vezes é difícil de lutar contra a maré, principalmente quando é noite e a lua e as estrelas desapareceram. Os acidentes acontecem, pessoas morrem, nos perdemos a força para lutar e a vida parece não ter sentido nenhum. Os amigos fugiram de nós enquanto nos chamavam monstros. Dizem que não passamos de bastardos indesejados e que apenas existimos por sorte, nem sequer nos deixam explicar o que se passa, o que sentimos e o que pensamos. Não nos deixam dizer, gritar se for necessário, que sim, estamos partidos. Somos brinquedos partidos nesta grande e escura oficina. Não somos lixo, não somos sortudos por termos nascido, somos apenas seres humanos que tentam viver à sua maneira, mesmo que seja esquisita e incompreensível.

Monstros… Será que as pessoas sabem o que são monstros? Ou será que o que elas querem dizer é que somos esquisitos ou fora do normal? Não somos todos diferentes uns dos outros? Não percebo qual é a diferença entre nós, os monstros, e eles, os humanos. Pensei que monstros fossem aqueles que nos assombram os sonhos e se escondem na escuridão. Não percebo como é que nós podemos ser esses monstros. Eu apenas assombro os meus próprios sonhos e se é o facto de gostar da escuridão que me faz ser um monstro então vocês são o quê? Se só por não termos medo da dor isso nos torna monstros então é o que somos.

Uma lição que aprendi á algum tempo é que devemos aceitar o que somos e o que o universo nos dá. Se não aceitarmos o que somos como podemos ter relações e esperar que os outros nos percebam. O problema é quando os outros não querem saber o que somos, apenas ligam ao que lhes interessa. Para eles somos monstros, para eles sou a bruxa que mais parece um furacão, mas não me interessa. Aceito que sou uma bruxa, aceito que sou o monstro que talvez atormente os vossos frágeis sonhos de criança. Aceito porque sei que sou forte e que nenhum dos bastardos ingratos e néscios me vai fazer cair novamente.

As minhas feridas podem ter sarado mas a dor continua lá, por isso é que me tornei forte. Agora não luto para apagar a dor, tomei-a como minha e aceitei o que ela é, por isso agora é mais fácil. Serei o monstro porque tomei a dor como minha? Se sim, então é o que sou e nada posso fazer. A dor faz parte do que somos, assim como a alegria e a solidão. Monstros… Talvez sejamos… Será que olhar para o mundo de maneira diferente é mau? Será uma coisa assim tão monstruosa? Todos olhamos para as coisas de maneira diferente, sendo assim todos são monstros. Cruéis, assassinos e demoníacos… Nem todas as pessoas são más, nem todas são boas, logo nem todos os monstros são de os brutos e insensíveis que vocês pensam.

Se somos monstros e se vocês afirmam que o somos, então pelo menos tenham a decência de nos diferenciar. Se querem afastar-se de nós, se querem aniquilar-nos então vocês são tão monstros como nós. Não nascemos como monstros. Não somos a vossas marionetas, é por isso que vocês não gostam de nós. Não fazemos o que as crianças mimadas querem. Não deixamos de lutar contra o vosso reinado. Só por queremos coisas diferentes das princesinhas e principezinhos dos papás e das mamãs, somos considerados monstros. Injustiça!

Monstros, bruxas, demónios, aberrações, insensíveis e cruéis… Olhando para o passado vejo uma menina que encheu oceanos com as suas lágrimas salgadas, mas dentro do seu coração vejo um anjo negro. Talvez seja impressão minha, talvez esteja a ser paranoica, talvez seja mesmo má. Começo a ter dúvidas porque o futuro não é certo mas por agora vou dormir. Vou esperar que a lua apareça e me ilumine. Esperar porque ter paciência é essencial em muitas situações. Vou esperar que quando a lua nos ilumine todo o mundo possa admirar a bela daqueles que ele apelidou como sendo os Monstros.

Se tiver destinado a acontecer então vai acontecer, entretanto teremos de esperar. Esperar enquanto a lua ganha coragem para pedir ao sol para ele a iluminar e ela poder refletir a luz na nossa direção. No fim seremos nós os guerreiros nesta infinita batalha pela imortal diferença. Adeus aos humanos. Adeus aos monstros. Adeus à injustiça que nos atraiçoa a cada passo que damos. Adeus ao mundo porque este muda sempre que um de nós, monstros ou humanos, muda. E olá eterna Lua!

sábado, 24 de março de 2012

A companheira da pequena flor

Ao longe, na margem de um rio, corre uma enorme e bela pantera. Os seus olhos brilham como duas estrelas douradas num mundo alaranjado e envelhecido. Atrás de si apenas estava o sol sonolento, cansado de um longo dia a brilhar. A relva ondulava ao mesmo tempo que a cristalina água do rio. As folhas das árvores bailavam com o vento, rodeando em redor da veloz pantera. O seu pelo era negro como a noite e inúmeras gotículas de água cobriam o manto negro.
O vento trazia um aroma doce e floral, um campo de flores devia estar perto. A pantera começou a abrandar, até que finalmente as suas majestosas patas pararam antes da primeira e colorida flor do vasto campo florido à beira do largo rio. No meio de todas as flores estava uma rapariga, uma criança. A pantera olhou para ela e sentou-se enquanto a criança, alheia à presença daquela fera, colhia flores e com a sua voz de rouxinol cantava um linda canção que a sua mãe lhe havia ensinado. Uma atrás das outras, laranjas, vermelhas, amarelas, brancas… Ela colhia as flores com delicadeza e atrás dela, do outro lado daquele mar de flores, a pantera esperava atentamente.
O antigo vento começava a abrandar e o sol continuava lentamente a deitar-se no horizonte. É neste momento que a rapariga, calmamente, levanta-se e com a mão livre sacode as folhas verdes que se prendiam com força no seu lindo vestido creme. Ao virar para trás a pantera também se levantou e os seus olhos cruzaram com os da pequena boneca com as flores nos braços. O tempo parou ao mesmo tempo que a pequenita tinha deixado de cantar. Os olhos dourados fixavam os olhos meigos, o vento voltou a levantar as folhas e a empurrar a criança na direção da pantera.
Com as flores nos braços e um sorriso a formar nos seus pequenos lábios ela avançou. A pantera não se mexeu, continuando a olhar fixamente para a sua pequena parceira. Elas nunca se tinham visto antes, tinha sido sorte se assim quisermos acreditar ou talvez os Deuses, antigos e novos, tivessem querido juntar aquela pequena à sua íntima. Talvez fosse a única forma de a proteger. O vento só parou quando a rapariguinha abraçou à pantera. Mas antes das folhas bailarem para o chão uma voz ouviu-se, vinda da floresta. Acompanhada pela pantera aquela florzinha cantou durante todo o caminho até onde a sua mãe ansiosamente a esperava.

Os anos passaram, as flores murcharam, novas flores nasceram, o rio continuava a correr acompanhado ocasionalmente pelo vento e as suas folhas, as árvores cresceram e a vida continuou. Na lago de flores todos os dias se via uma jovem a cantar uma linda canção e ao seu lado, deitada com a sua cabeça gentilmente repousando no colo da sua companheira, estava a linda pantera negra com os seus olhos dourados e o seu coração em sintonia com o da pequena de olhos meigos. De vez em quando o vento faz voar folhas, traz um aroma salgado do mar para além da grande floresta e presenteia-os aqueles dois seres que ele juntou para sempre com um laço inquebrável e maravilhoso.

sábado, 3 de março de 2012

Lutar, aproveitar a vida e sorrir


Vou tentar com todas as minhas forças porque lutarmos por uma amizade é uma boa luta e não me importo de sofrer vezes sem conta. Diste que gostarias de manter a nossa amizade por isso vou lutar. Lutar contra os pensamentos negro que me atormentam e não me deixam ser tua amiga. Vou pegar na minha espada de luz e purificar os monstros que massacram os meus sentimentos. Tudo em nome da amizade. E quando a força parecer ter acabado, vou respirar fundo e ver o quanto já lutei, de certeza que ao ver os sacrifícios e o que ganhei com a batalha, a minha alma vai ganhar novamente forças para continuar nesta forte guerra contra os seus monstros.
Posso ser esquisita e talvez doida, posso acreditar no destino e em seres míticos, posso até ter umas ideias totalmente anormais sobre o que é a vida, a morte e o nascimento, mas uma coisa eu não sou: Não sou uma desistente. Não vou desistir, mesmo que tenha de lutar contra a minha vontade de fugir e não voltar a falar contigo. Vou lutar pelas memórias da amizade que tivemos, amizade que parte de mim deseja. Quero voltar a tocar no céu, voltar a sorrir por causa dos bons momentos que passamos juntos.
Sei que tenho a noite a cobrir-me, sei que as minhas asas tornaram-se negras e que aquilo que há muito tempo decidi ser tornou-me negativa, tornou aquilo que a maioria das pessoas não quer ter ao seu lado. Tornei-me em algo aborrecido para os outros, sem nada de cativante. Mas nesse manto negro que me cobre não existem apenas sombras; existem coisas, seres, espíritos brancos. Os meus amigos, companheiros, conhecidos, seres humanos podem negar que eles existam e talvez seja por isso que sinto medo. Medo porque não sei o que são e porque é que apenas eu os vejo.
Talvez eles tenham mesmo razão: Sou doida. Não me importo muito com o que pensam mas às vezes dói. Dói saber que talvez até tu penses isso e que mesmo assim queres ser meu amigo. Será que é por pena? Será que aceitas o que sou? Será que me queres mudar? O que queres de mim? Não suporto ter mil e uma questões na minha mente. Não suporto ter de ficar sem respostas quando as pessoas que sabem estão tão perto de mim. E ainda me perguntar porque é que não sei se vou conseguir voltar a ser tua amiga. Mesmo que lute contra mim própria, mesmo que o meu lado negativo ceda e me deixe aproveitar este curto tempo contigo, terei de sacrificar algo. Terei, talvez, de bloquear tudo o que sou até ser insuportável continuar assim. Tantas possibilidades que não ser o que fazer.
Tudo o que é bom um dia torna-se mau e tudo o que é mau um dia deixa de o ser. A luz acaba como escuridão e a escuridão renasce como luz. Tentam dizer-me que a escuridão é má e que só a luz é boa, mas será que é assim? Será que a escuridão pode ser boa? A escuridão embala-me quando estou cansada e protege-me quando a luz é muito forte e tenta maltratar-me tentando levar-me a fazer coisas que não quero. A escuridão parece perigosa mas na verdade é tão perigosa como a luz. Tão perigosa como eu. Não quero destruir tudo no fim de lutar muito. Por isso se tu estás a lutar e queres ser meu amigo sabendo o que sou, então eu só tenho de fazer o mesmo.
A verdade vai libertar-me e eu apenas tenho de continuar a acreditar que será possível. Que terei a capacidade de mover uma montanha e lutar para fazer ceder tudo o que é mau mesmo que seja por pouco tempo. Se realmente quero voltar a tocar no céu e aproveitar os poucos dias que tenho com os meus amigos tenho que deixar o passado ficar no passado e aprender com ele mas nunca viver em função dele. Tenho de esquecer o máximo que conseguir toda a energia negativa que me rodeiam e apenas absorver o calor da energia positiva. É o mínimo que posso fazer depois de ter estragado tudo.
Vou tentar mudar, pouco a pouco se necessário, e partir em frente porque não posso mudar o passado mesmo que tivesse poderes mágicos. Esquecer o que os outros dizem sobre mim e sobre aquilo em que acredito e vejo. Esquecer que há pessoas que não gostam de mim pois isso vai acontecer sempre ao longo da minha vida, seja ela longa ou curta. Esquecer a morte porque ela é muito final e a vida é cheia de possibilidades. Vou tentar lutar, aproveitar a vida e sorrir para os meus amigos porque não sei quando é que será o meu último dia a aproveitar a vida dura e maleável.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Tudo o que desejo


Tudo o que eu desejava que não acontecesse aconteceu com excepção de uma coisa, a coisa mais importante realizou-se. Então porque é que o meu coração ainda chora? Será que queria algo mais sem saber? Será que tudo o que é mau é mais forte que o meu desejo de não perder uma amizade tão importante? O que se passará comigo? Porque não posso eu ser mais forte? Tantas perguntas e nenhuma resposta. Que triste vida.
Onde é que queres chegar quando eu estou a chorar e tu sabes o porque? O que queres que te diga? Que te amava? Que não me sinto triste? Que não me vou afastar? Tudo o que disseste ecoa na minha mente. Eu já sabia mas preferi manter-me calada, pensei que se esquecesse que te amava e que tu não sentias o mesmo, tudo ficaria bem, mas tu tinhas de vir falar comigo. Tinhas de me dizer aquilo que eu já sabia, tinhas de me partir completamente o coração, tinhas de fazer tudo o que eu não queria que fizesses.
Gostava de dizer que está tudo bem, que podemos ficar amigos sem nenhum problema. A verdade é que eu ainda não te consegui esquecer e enquanto tudo não estiver apagado e o meu coração estiver curado não posso continuar perto de ti. Tudo o que desejava que não acontecesse irá acontecer. Vou afastar-me porque não quero sofrer, porque não quero apaixonar-me ainda mais por ti. Não quero ter de viver com esta dor por isso vou afastar-me o mais que puder, durante o tempo suficiente para que tudo passe. Vai ser difícil, mas a vida nunca é fácil.
Além disso não quero que tenham pena de mim. Não quero que olhem para mim e digam: Aquela é a rapariga do coração partido. Eu apenas quero que pensem em mim como a rapariga que lutou para manter o coração intacto, uma rapariga forte e corajosa. Quero que olhem para mim e vejam a escritora que sou. Não me importo que olhem para mim e vejam uma rapariga de olhos vazios, completamente partida, sem força para continuar mas não suporto que pensem que não me esforcei. Tudo o que desejo é esquecer todos os mal intendidos e todos os sentimentos de dor e raiva. Tudo o que desejo é não odiar-me por não te conseguir odiar.
Tudo o que quero é tocar no céu, poder dormir descansada e ressuscitar o meu coração. Mostrar a todos a verdadeira jovem que sou. Mesmo que no fim da estrada da desilusão o caminho pareça mais difícil eu vou lutar. Quero deixar de ouvir as tuas últimas palavras, quero esquecer esta voz na minha cabeça, quero continuar a viver livre destas correntes. Quero ser feliz. Apesar de tudo, quero é dizer que te desejo o melhor, porque se o destino não nos quer juntos é porque ele tem uma razão mais forte do que tudo, por isso espero que sejas feliz.