Este é o local onde as palavras encantam.
Os escritores também tem sentimentos. Se sentiste, diz. Assim estaremos todos no mesmo nível de partilha.
Mostrar mensagens com a etiqueta Destino. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Destino. Mostrar todas as mensagens

sábado, 16 de janeiro de 2016

Sono Mortal

Dissemos, ‘é o sono mortal’. Corremos o campo e rastejamos sobre lama. ‘Irmãos, olhem para mim!’ Gritos e respirações cortadas. Dissemos que a morte chegaria sem misericórdia. A tempestade chegava com força bruta e nós íamos para casa tentando deixar o passado atrás das costas e bem longe. Sim, vamos para casa, bem longe da dor e terreno árduo. ‘Vamos para casa!’ Gritos e assobios. Choros e abraços. Dissemos ‘adeus’ ao passado e caminhamos erguidos e destemidos.
Chegamos e viajamos com diversão. Famílias esperando às portas da passagem. Casa seria onde elas estavam. O sangue aqueceu, lágrimas limparam os males, caricias acalmaram os demónios. Dissemos ‘obrigado’ e caminhamos de mãos dadas aos nossos queridos. Vimos o sol nascer e a noite pintada de constelações. Somos o infinito e tentamos mover montanhas. Quatro paredes quebradas, passos firmes e passado do outro lado do oceano.
Saltamos do penhasco e mergulhamos em água fria. Perdemos o avião e percorremos o mundo com uma mala às costas. Voltamos a juntar-nos duas vezes por ano. Irmãos sempre, cá qual segundo o seu destino. Sorrimos e por momentos tudo pareceu cinzento. Nada era perfeito mas podíamos fingir que os demónios não existiam, que não ouvíamos os sons intensos ou sentíamos a lama nas nossas roupas mesmo quando ela não se encontrava presente.
Dormimos com uma mão presa em redor do punho que nos poderia salvar. Lâmina afiada, um passo perto do abismo. Carregamos as nossas culpas e os nossos erros. Seremos livres? Dissemos ‘adeus’, então porque sentimos que continuamos lá? Rastejando por baixo de arame farpado, subjugando-nos às noites gélidas e aos dias ardentes, nunca sendo capazes de ver o verdadeiro azul do céu, ou o ondular da água embatendo nas rochas e rolando pela areia da praia cheia. Tínhamos pesos nas pernas e afundávamos no poço de água verde.

Dissemos que era apenas um dia mau, um dia que ia desaparecer das memórias. Pegamos na mala e continuamos a viagem com a família perto de nós. Rodeamos o corpo das nossas crianças e abraçámo-las. O olhar brilhante, a saudade… Tudo ajudava a caminharmos um passo em frente, longe do sono mortal. E paramos, olhamos aos céus e dissemos, ‘Olhem para nós! Quebrados por salvarmos a terra que nos viu nascer!’ Continuamos. Choros, passado e um toque de dor. Felicidade? Talvez no futuro. Paz? Sim, paz. Hoje…

sábado, 4 de abril de 2015

Reino dourado, adaga de prata, continuar



Os passos acelerados pela areia quente de um caminho atarefado, onde pessoas entravam e saiam de lojas, carregando os seus cestos e sacos de pano. Ela quase corria, desviando-se da multidão, olhando para trás com receio não das sombras, mas daquilo que essas guardavam por completo dos olhares indesejados. Com o capuz da capa negra cobrindo os seus longos cabelos castanhos-claros, a jovem escondia-se daqueles que procuravam a adaga de prata.
Sons metálicos ecoavam por cima de todos os respirares, gritos e restantes bárbaros sons naquela popular estrada. Passo atrás de passo. A canção de quem perdeu a luz da sua própria alma. Os lamentos dos inocentes, dos quebrados, dos para sempre desaparecidos nos desertos da vida. Assim ela caminha, rápido e com cuidado, pelas estradas, sem nunca parar. Olhando para trás, vendo homens armados seguindo-a sem que os seus olhos embatam nos dela, sem tendo cuidado com as pessoas ocupando a poeirenta rua, que se ramificava em muitas outras. Não um, nem sequer dois ou três. Vinte e um homens a marcharem com a brutalidade de mil animais selvagens e duzentos guerreiros de outro tempo.
Ela passava. Rezando… Talvez apenas pedindo, fosse a que fosse… Uma súplica silenciosa a uma entidade superior. Passa atrás de passo. A melodia de uma viúva nos braços da sua filha mais velha. O choro de uma criança que caíra no de terra e pedras. Assim ela ia rumo a um destino há muito alterado, pois o futuro mudava com cada ouro derramado. Isso, ela sabia; acima de tudo, ela compreendia o ciclo da vida. O amargo a acumular-se na sua boca com cada passa dado.
A capa negra voava como os movimentos e vento fresco da primavera. O andar metalizado não acabava, não se afastava e não desaparecia. Nunca iria desaparecer. Ao longe ela via a escadaria que a levava à praça central; um lugar amplo, onde muitos mercadores vendiam as suas recentes cargas e os aldeões compravam sem parar. Apenas essa palavra preenchia a mente dela naquele momento, “parar”. Assim era, assim sempre seria, até alguém virar a esquina e dizer “continuar”.
Marchar, marchar… Passo e passo, uma canção de embalar para quem nunca conheceu outro som durante toda a sua curta vida. Crianças a brincarem, ignorando os choros daquelas que caíram. Mulheres gritando e novas esposas levando as roupas sujas à fonte. Tudo corria, tudo continuava. Sim, continuava… E também a jovem o fazia. Protegendo a adaga de prata, não a mostrando a quem quer que se aproximasse. Guardando essa arma invisível no seu interior. Nada lhe roubaria a prata da sua alma. Nada levaria o sangue a derramar-se sobre a areia do caminho. Caminhando apressadamente ela foi. Rumo ao reino dourado.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Um caderno, uma pena, um caminho



Escuridão… Tremenda noite sem estrelas. Porque haveria ele de passar as ruas pouco iluminadas sabendo do perigo que corria? Só ele sabia. Só ele, aquele jovem, poderia responder a questões tão complexas como esta com uma resposta tão simples quanto o rio a correr. Certamente, só ele poderia louvar sobre um momento perdido no tempo e espaço. Num passado fixo, num futuro oscilante, somente ele percorreria a calçada deserta com um caderno nas mãos e uma pena debaixo do chapéu. Carregando o seu mundo nos ombros, ele dá passos um tanto firmes sobre um piso irregular.
Não havia vento, porém, a noite era fria sem tais corrente de ar passando pelos corpos dos corajosos que se encontravam à porta de um café no virar da esquina. E para o jovem… Com o seu caderno de capa preta, folhas escritas e notas feitas nas páginas bege, ele caminha pela calçada. O sol que desaparecera em pó num horizonte nunca alcançado. Só o rapaz sabia o porque do tremer na sua mão dominante, o porque dos momentos de ouro que atingiam-no com a ansia de um novo dia, o porque do sussurro numa escuridão perdida. Só ele… Mais ninguém.
A rendição… A imposição no solo firme debaixo dos seus pés. Nada o pararia de dar um novo passo. Ele render-se-ia ao sonho, ao batalhar doloroso contra um algo a que nada se poderia fazer. A vingança de nada serviria, e o choro acumulado não seria bom para o coração sentimental. O fogo a arder na sua alma crescia com o impor dos pensamentos sobre um acreditar. O caderno continua escrito, a pena continua escondida no chapéu escuro e a longa capa faz o seu corpo perder-se numa escuridão vinda do norte.
Um novo dia viria… As luzes brilhantes ocultam a pequena sombra da dúvida subtil. A chuva viria durante um céu escuro estrelado. Fadas dançariam pelos campos floridos do grande parque. O olhar sábio do jovem rolava pela beleza do dia e da noite, pela tristeza da mulher sentada no banco do jardim, e pelas estrelas invisíveis daquela noite. As gotas que nunca mais chegaram lavariam as lágrimas que sempre caiem quando a saudade aperta.
Escuridão… Tremenda noite sem estrelas num céu negro. E ele passava pela rua deserta, nunca parando, nunca deixando de sonhar e sentir umas mãos nos seus ombros guiando-o pelos caminhos difíceis e fáceis da vida, ajudando-o a libertar-se do peso sobre as suas costas através de um caderno e de uma pena. Ele era o que era sem nunca esquecer do amor no seu peito e a inspiração na sua mente. O olhar forte, e o sonhar constante e imperfeito numa vida injusta e nem sempre correta. As asas que ele possuía eram invisíveis, e as lágrimas, que não caiam naquela noite, eram salgadas e sofredoras. E a calçada continuava, seguindo ele atrás de um desejo a realizar. A rendição de um dia de chuva e de um sol a quebrar a escuridão. Uma reza e um poema…

sábado, 23 de agosto de 2014

Forte será a promessa do novo dia



Leve será a pena a voar sobre o mar. Brilhante será o sol no horizonte marinho. Contínua será a promessa de lutar. E ausente, num crescente e pensativo momento, pele morena iluminada pelos raios perdido de um fim do dia, um homem vive. Fugitivo a correr, tropeçando e caindo ao longo do caminho da verdade. Estrelas a iniciarem o seu trabalho. Trabalho árduo como aquele que o homem durante anos vivera, carregando mágoas, vontades, memórias de paixão, da família longe e perto, sempre com o coração a apertar com as saudades e nunca deixando de lutar pela sua vida, pelo seu futuro e presente.
Forte será a promessa do novo dia. Dia que virá. Na rua gritará um louco. Assustando as crianças e incomodando aqueles que passavam. Gritava sobre a escuridão no mundo e sobre os planos dos espirito para os não crentes. E o Fugitivo passava, ignorando a canção do louco. Tentando deixar o seu estatuto, tentando voltar para casa sem a amargura no peito, aquela dor que consome as almas dos bons homens.
Severa será a cobrança de um mal feito, de um dia para lá do alcance das mãos de um sonhador. Melódica será a canção dos vivos. Alegre será o ondular das ondas sobre uma praia coberta no verão de todos os anos. E o Fugitivo passa. Os seus irmãos e irmãs agarram-no pelas mãos e puxam-no para dançar. Rodopiando e ignorando o louco da rua. Fora criado a erguer a cabeça quando o vento o fazia falhar um passo e cair na terra seca. Fora criado a abraçar a sua família. E no trabalho árduo de um homem a viver pelo futuro, ele perdeu-se várias vezes como todos os seus iguais. Ninguém criticará, poderão unicamente olhar para ele e dizer o que vêm.
Esperançosa será a promessa daquele dia. O dia em que todos dançam em redor da grande mesa retangular. O dia que virá. A perdição será leve na sua mente. Todos os problemas pareceram distantes quando o sorriso dos seus pais perdesse nos seus rostos enquanto as memórias ecoam ao som da voz do homem e dos seus irmãos e irmãs. É um novo dia. Quando partir, serão cartas na gaveta, fotografias em álbuns, e palavras ao vento. No mesmo vento que o levantou pelo ar, atirou para o chão e ajudou a levantar inúmeras vezes ao longo da vida.
Leve será, leve foi e brilhante nunca deixará de ser a sua mente, a sua memória, os raios de sol a embaterem na sua pele ao se pôr no horizonte marinho, lágrimas em cascada por todos os passados e presentes em contínua promessa de luta. Nunca parando. Fugitivo um dia. Irmão no novo. Na forte promessa do ausente crescendo da melodia entoada na voz rouca da sua querida mãe, perdida nas linhas da manta, voando com o cheiro a pêssegos numa casa que o viu crescer. Na manhã ele continuará, seguindo o caminho iluminado por estrelas invisíveis, escoltando os mistérios dessa mesma promessa, desse mesmo dia.

sábado, 5 de abril de 2014

Borboleta Branca



 Para a Alexandra. A Borboleta que merece voar. Ela que merece seguir muito mais do que o caminho amarelo. Ela que merece estar rodeada de magia, rodeada de amor, carinho e respeito. Ela que anda graciosamente e tentando ser forte por ela e pelos que ela ama. Ela que me apoiou e que ainda o faz em todos os dias da minha vida. Ela que acolhe como uma pessoa importante na sua vida. Para ela, que eu apoio e aconselho, porque merece sonhar.


 No meio da noite, suave e cintilante luz banhava o lago azul cristalino. Voando de pedra em pedra, os pirilampos passavam o tempo imortal. Nem mesmo na noite há silêncio. A não ser que o silêncio seja o uivo dos lobos, o canto dos rouxinóis, o bater das asas das corujas e o vento a ondular a água serena. Contando que este último fugiu com as nuvens, só resta o silêncio de uma noite típica do lago, típica da floresta, típica da natureza que rodeia a mulher de branco.
Uma estranha luz guiou pelos caminhos irregulares da floresta. O vestido branco quase a roçar na terra, a capa cinzenta aos ombros e o cabelo a deslisar pelas costas. A lua deixava o seu pó cair nos fios acastanhados, dourando-os. Se um caçador passasse diria ver uma deusa. A graciosidade com que ela percorria o caminho de terra, desviando-se das raízes e pedras, ninguém diria que ela vivia na aldeia.
A guiara-a. Nada se poderia dizer quanto a ela. Nem a jovem sabia. Porque haveria de a seguir? O que era a luz? Se a pergunta fosse respondida, ela não estaria ali naquele momento. Há questões que devem ser deixadas em paz, na escuridão do seu mistério. E pouco… Aquele pouco conhecimento que o tempo disponibiliza, louvado seja pela magia que concede, porque se não fosse ele, ela não teria decidido seguir o mistério.
O lago acalmara. O vento passara, os pássaros noturnos dançavam, os pirilampos iluminavam a inevitável loucura, e os lobos afastavam-se seguindo rumo à montanha. A mulher de branco chegou. A luz lunar refletia no seu vestido. A mágica aura no ar rodopiava e mergulhava, levantando o azul do lago, refletindo as estrelas e a luz que guiara a jovem. A capa, ao cair no chão, descobrindo o corpo dela. Longas e sedosas asas repousavam no seu corpo como se fizessem parte do vestido.
Se em tempos ela voara, não se sabe. No entanto, agora ela tenta ser livre. Livre de correntes que a prendem à aldeia que nada sabe. A pequena borboleta branca… O sorriso nos lábios. As mãos a acariciarem as asas da coruja, sentado no ramo mais alto da árvore, lado a lado com a mulher de branco. O uivo dos lobos ao sabor da lua cheia. Os rouxinóis a contarem histórias. A magia no lago da esperança.
Se o vento levasse os pesadelos embora e trouxe se as possibilidades… Ela teria de as procurar. Tentar voar para longe se necessário. Despedaçar as correntes do sofrimento. Seguir o caminho que ela quer trilhar. Acreditar pois a sua mãe sempre lhe disse que ela seria capaz. Sonhar. O primeiro passo começa com um sonho. Viver por aquilo que ela acreditar. E voar… Sempre, voar. Por que outro motivo seguiria ela uma luz?

sábado, 29 de março de 2014

Rumo ao Sonho (Micro-conto III)

O terceiro e último micro-conto que escrevi para o passatempo. Infelizmente não ganhei o referido passatempo. Porém, não deixei de escrever. É por esse motivo que partilho o que escrevo neste Blog.
Talvez venha a escrever mais micro-contos no futuro.



Muitas vezes embarquei rumo ao horizonte, perdi-me, lutei contra tempestades e sacrifiquei tempo e energia para não me naufragar. Escapei do canto das sereias e remei contra correntes. Vi noites tornarem-se em dias e dias em noites até me esquecer do passado e do futuro. Fiquei à deriva durante dias mas no final valeu a pena por aquele Sonho.